sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Capítulo 3 – “Foste a melhor coisa que já me aconteceu”



Música – “Sorte grande” – João Só & Lúcia Moniz
http://www.youtube.com/watch?v=Lj08ruTRADI

“Já se passaram alguns anos
Nem sequer vinhas nos meus planos
Saíste-me a sorte grande”



Estavam os dois sentados no banco vermelho, aquele banco em que se tinham sentado tantas e tantas vezes durante aqueles dois anos de namoro. Já antes de começarem a namorar era costume ficar por lá á conversa com os amigos. Aquele era oficialmente o banco do 12ºC, ou o SPOT como muitos gostavam de lhe chamar, era lá que a turma se encontrava todos os dias de manhã enquanto esperavam que todos chegassem, era lá que se encontravam nos intervalos, e quando se separavam por alguma razão, sabiam que se voltassem ao SPOT estaria sempre lá alguém.
Inês e João estavam encostados um ao outro, ela com a cabeça no ombro dele, e as suas mãos entrelaçadas por cima da perna dela. Estavam assim, os dois distraídos, quando ouviram uma voz bem familiar.
- Oh pombinhos, nem nas férias se largam? Nunca vi tanto mel. Quando é que tiram férias um do outro? – Perguntou a Mariana, sentando-se no meio dos dois.
- Agora vamos ter muito tempo para isso – disse João, numa voz tão baixa que mal se percebeu.
Os olhos de Inês brilharam quando ouviu a voz de Mariana, facto esse qua não passou despercebido a João, a sua namorada era muito transparente para ele. Mariana e Inês eram amigas desde o jardim-de-infância, conheceram-se com três anos e desde aí a amizade só tem aumentado. As raparigas "partilhavam tudo, menos os namorados" como elas mesmas costumavam dizer, não havia segredos entre elas, e sempre se ajudavam mutuamente. Tinham chorado muitas vezes no ombro amigo da outra, estavam presentes tanto nos momentos bons como nos maus, partilharam segredos que não contaram a mais ninguém, conheciam-se verdadeiramente uma à outra e aceitavam-se com todos os defeitos e qualidades que elas, conscientemente, sabiam possuir, eram acima de tudo irmãs.
- Eu gostava muito de saber porque é que uma certa melhor amiga passa todo o mês de Agosto sem dar notícias. – Disse ironicamente a Mariana.
- De certeza que essa melhor amiga não teve culpa. – Inês entrou na brincadeira.
- Aposto que essa melhor amiga esteve tão entretida com o namorado que nem teve tempo para um telefonema, uma sms, um email. – Continuou a Mariana.
- Em primeiro lugar, Dona Mariana, foi a senhora que foi de férias durante um mês para o Brasil e mal se despediu, eu mandei emails quase todos os dias, tentei ligar várias vezes mas ninguém atendeu, até que desisti, e da mesma maneira que eu não me lembrei de ti, tu também não fizeste muita questão de te lembrares de mim. – Concluiu Inês com um pouco de mágoa, adorava a Mariana, era a sua melhor amiga desde os três anos, mas não gostava quando ela começava com as suas brincadeiras parvas, principalmente quando não tinha razão.
- Oh, já estão as comadres chateadas. – Tentou brincar o João, mas sabia que o comentário da Inês tinha sido sério, ela tinha comentado com ele que não gostava desta ausência da Mariana, não gostou que ela se tivesse ido embora sem se despedir e não gostou que ela não tivesse dado uma única notícia durante quase um mês.
- Tens razão Best, perdoa-me, estou a ser parva, eu não tive muito acesso à internet enquanto estive no Brasil, eu vi as tuas chamadas mas por uma razão que nem sei explicar não liguei de volta. Sei que não tenho perdão, mas eu adoro-te Inês, desculpa-me. – Disse já com algumas lágrimas nos olhos, tinha errado e sabia que a Inês era a pessoa mais justa do mundo, por isso, era ela quem tinha que se desculpar.
- Oh minha parva, eu estava a morrer de saudades tuas, é claro que te perdoo, eu não sei viver sem ti. – Inês sorriu.
- É verdade, eu sou testemunha, ela estava cheia de saudades tuas. Estava sempre a dizer “A Mariana é que gosta desta música”, “Este é o gelado preferido da Mariana”, “Será que a Mariana está a gostar das férias no Brasil?” – Brincou o João, tentando fazer uma voz fininha, as raparigas riram.
- É verdade. – Acabou por concluir a Inês.
As duas amigas abraçaram-se e pediram desculpas uma à outra, João olhava deliciado e sorria, sabia como a Mariana era importante para Inês, e até ele gostava daquela miúda e tinha sentido a falta dela nas férias, tinha-se inserido muito bem na nova escola e a verdade é que a Mariana contribuiu e muito para a integração dele. A verdade era que a Mariana era chatinha, mas era uma amiga cinco estrelas.
- Anda cá parvo, também tinha saudades tuas. – Disse Mariana sorrindo.
O João juntou-se ao abraço das amigas e riram os três, parecia que estavam de volta àquela escola onde foram tão felizes.
- Então, conta-nos como foram essas férias no Brasil. – Perguntou o João.
- Ah, foi um show dji bola, cê sabi né? Muita praia, muito sol, muita água de cocô, um montji dji gatxinhos bronzeados – suspirou – foi um sonho. – Tentava imitar o sotaque brasileiro, enquanto contava as novidades aos amigos.
- Ah, gatinhos bronzeados, eu sabia que havia uma boa razão para ela não dar notícias. – Brincou a Inês.
- Bem, já gostei mais desta conversa. – Disse o João, tentando parecer enciumado, o que não era muito difícil, porque ele tinha sempre muitos ciúmes da namorada.
- Então e vocês, o que é que fizeram? Não me digam que ficaram o verão todo aqui sentados? – Brincou mais uma vez Mariana.
- Nós? Bem, na primeira semana de Agosto fomos com a mãe e os avós do João para o Gerês, depois fomos uma semana com os meus pais e o meu irmão para Sintra e a semana passada fomos os dois sozinhos para o Algarve. Não fomos ao Brasil mas visitamos Portugal de Norte a Sul. – Contou Inês enquanto pensava nas férias que tinham passado.
- O quê? O João e o David na mesma casa durante uma semana, essa eu gostava de ver. – Disse ironicamente, a Mariana.
- E dormiram no mesmo quarto. – Completou a Inês.
- Então se o João está aqui ao meu lado, quem morreu foi o David. – Gracejou Mariana.
- És muito tonta. – Disse João enquanto lhe dava uma palmada no ombro.
- É mesmo coisa do teu pai, por os dois a dormir no mesmo quarto, assim não corria o risco da filha ficar desonrada. – Brincou Mariana.
- Atenção, atenção – começou Inês – é oficial, a Mariana está de volta, já cá faltavam as tuas piadinhas de mau gosto.
- Desculpa, mas não podes negar que o teu pai é muito antiquado, podias ficar tu no quarto com o João não é verdade?
- Sabes que se o meu pai te ouve a falar assim nunca mais entras lá em casa, não sabes? – Perguntou Inês.
- O teu pai adora-me, ele não era capaz disso, e ele bem sabe como eu sou e qual é a minha opinião.
- O meu pai não é antiquado, foi uma questão de logística, a casa era pequena, os meus padrinhos e os meus primos também foram, teve que ser assim tonta. – Resmungou Inês defendendo o pai. – E, não sei se me ouviste há bocado, eu e o João fomos sozinhos para o Algarve, achas que o meu pai pensa que dormimos em quartos separados?
- Não te zangues já comigo Inês, acabei de chegar bolas.
- É que tu às vezes és muito inconveniente sabes? – Afirmou Inês já mais sorridente.
- Ó amor – começou João – não te esqueças o que o teu pai disse antes de sair de casa “Tu vais dormir com o David, filha minha não dorme com o namorado debaixo do mesmo teto que eu”, eu até fiquei assustado. – Relembrou o rapaz.
Os três riram, isso não era novidade, partilharam muitas gargalhadas juntos, principalmente naquele sítio, agora enquanto ali estavam parecia que nada tinha mudado, era um regresso ao passado, mas que tinha um sabor amargo, afinal dali para a frente nada ia ser igual.
- O meu pai estava a brincar amor, ele não é assim tão tacanho, mas gosta de manter o respeito.
- Eu sei, o meu sogro é uma pessoa com um humor muito peculiar.
- Então não me responderam se o David morreu ou não? – Perguntou Mariana para mudar de assunto.
- Não Best, o David anda por aí, aliás estamos à espera dele pra ir embora. – Disse Inês.
- Ah ok, estou mais descansada, mas continuo a pensar que nessa batalha épica era o David que sairia vencedor.
- Tão pouca fé nos meus poderes, eu ganhava mesmo sem ter que invocar os poderes das sete bolas do dragão. – Brincou João.
- Já cá faltavam os desenhos animados, o meu irmão até que andou sossegado durante as férias, mas agora que te vai reencontrar vão começar as conversas estranhas. – Lamentou-se a Mariana. – E domingo, posso ir almoçar a tua casa Inês? Tenho saudades dos cozinhados da tua mãe e podíamos por a conversa toda em dia.
- Desculpa querida, mas os meus pais estão na Madeira, ele fizeram vinte anos de casados esta semana e foram numa espécie de segunda lua-de-mel.
- Tu e o David estão sozinhos em casa?
- Sim, por quê?
- Tens razão os teus pais estão mesmo a evoluir, os bebés já ficam sozinhos.
- Por favor Mariana não comeces.
- Ok, desculpa. É verdade, meus amores, tenho uma notícia para vocês. Eu entrei em medicina. – Disse Mariana entusiasmada.
João e Inês ficaram super contentes e abraçaram-na.
- Parabéns Best, tu mereces. – Disse Inês muito feliz.
- Boa miúda, parabéns. – Continuou o João.
- Obrigado. Agora só nos vamos ver aos fins-de-semana. – Disse a Mariana.
- Ah sim, porque? – Perguntou o João.
- Vou para Braga. – Concluiu a Mariana. – O meu irmão também entrou em Braga, vamos morar na casa da minha tia que está na Austrália, assim ainda poupamos.
- Bem que oportuno. – Disse o João, deixando a Mariana com cara de quem não estava a entender nada.
- Oh meu amor, eu também entrei em Braga, em psicologia. – Informou a Inês.
- Mas isso é o máximo Best, vais viver connosco, está decidido. – Disse Mariana muito feliz.
- Não sei Best, a casa é da tua tia. – Proferiu Inês.
- Não te preocupes com isso, está decidido. – Mandou a Mariana.
- Vou falar com os meus pais e depois logo se vê. – Continuou a Inês.
- Está bem Best, mas lá estás à vontade e o João pode ir visitar-nos sempre que quiser, se é que me faço entender. – Ironizou Mariana.
- Isso até é bem pensado. – Sorriu o João. – Pensa nisso amor, se ficares com a Mariana e com o Tiago eu vou ficar mais descansado.
- É isso, pensa bem e depois diz-me alguma coisa, mas já estou a imaginar eu, tu e o Tiago em Braga, tu a cozinhar para mim todos os dias, porque como sabes não tenho jeito para isso …
- Podes parar por aí, queres que eu vá viver com vocês, ou queres uma empregada doméstica?
- Então estás a considerar a oferta, eu sabia que não me ias deixar ficar mal. E não te preocupes o Tiago também sabe cozinhar, não tão bem como tu, mas safa-se. – Ironizou Mariana.
- Tens cá uma lata Mariana, nem sei como te aturo há tantos anos sinceramente.
- Sim Inês, nós já sabemos que tu és uma santa. Agora tenho que ir embora, vou às compras com a minha mãe. Até logo meus amores. – Disse a Mariana enquanto se despedia dos seus amigos.
- Até logo. – Disseram os namorados em coro.
- Ai tão fofos, a falar em coro, depois eu ligo, trouxe uns presentes do Brasil para vocês.
A Mariana foi-se embora deixando um espaço no banco entre o casal que se voltou a aproximar e o João passou os braços por cima dos ombros da namorada.
- É melhor irmos embora também amor. – Pediu a Inês.
- Ok, avisa o teu irmão. Vamos para o carro. – Disse João.
O João deu a mão à namorada e conduziu-a até ao carro, entraram e ela mandou uma mensagem ao irmão.
<Mano, estamos no carro à tua espera. Não demores. Kiss>
Inês pousou o telemóvel no tablier do carro e distraiu-se com o rádio, quando voltou a sua atenção para o namorado reparou que este olhava para ela fixamente e sorria.
- Um cêntimo pelos teus pensamentos – disse Inês, no entanto o João estava tão absorto nos seus pensamentos que pareceu nem ouvir a namorada que insistiu tocando-lhe no rosto suavemente – João? Porque é que estás a olhar assim para mim?
- Sabes Inês, eu sempre imaginei que iria encontrar uma mulher com quem quisesse passar o resto da minha vida, um amor verdadeiro – começou João, Inês sorria – ok podes achar que é muito lamechas, mas eu sempre fui romântico, deve ser influência da minha mãe e da minha avó, sei lá.
- Podes continuar amor, estou a gostar de te ouvir – incentivou a namorada.
- Não sei porque, mas eu sempre achei que quando eu encontrasse um amor, um amor verdadeiro, ia ser para sempre, só nunca pensei que ia encontrar esse amor aos quinze anos. Tu, Inês, foste a melhor coisa que já me aconteceu, crescemos muito juntos e foi com a tua ajuda que eu me tornei no que sou hoje, obrigado por tudo meu amor.
- Ei, não me agradeças amor, só retribuí o que fizeste por mim – disse Inês para em seguida beijar o namorado de forma apaixonada – mas o que é que se passa connosco? – Continuou enquanto limpava uma lágrima que teimava em cair.
- Desculpa, não queria que ficasses assim, mas eu precisava de te dizer isto, preciso que compreendas que és a coisa mais importante para mim neste mundo.
- Eu amo-te João – rematou Inês para pouco depois voltar a beija-lo.
Estavam no carro a ouvir musica e a namorar quando alguém bate no vidro.

1 comentário:

  1. Adoro esta música.
    Parabéns pela história continuem.
    Beijinhos

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