quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Capítulo 2 – Então … Amigos?


Música - Breathe in breathe out (Mat Kearney) 

http://www.youtube.com/watch?v=NDmnG9uTEfk



“Breathe in breathe out
Move on and break down
If everyone goes away, I will stay”




Inês não queria acreditar. Nesse momento um montão de coisas passou-lhe pela cabeça, embora ela tivesse posto Braga como segunda opção de entrada na faculdade, nunca acreditou que pudesse sair do Porto. O que ela mais temia estava a acontecer. Desde que namorava com João nunca tinham ficado separados, sempre ultrapassaram obstáculos juntos, esta seria a primeira vez que iriam ficar longe um do outro.    Quando ganhou coragem enfrentou João, as lágrimas escorreram-lhe pelo rosto e ele apenas a abraçou. Assim ficaram durante largos minutos. Embora não tivessem dito uma única palavra sabiam que o que lhes passava pela cabeça era exactamente a mesma coisa. Durante os anos de namoro criaram uma cumplicidade acima do normal, desde a primeira vez que se encontraram depois daquele jogo. Lembravam-se tão bem. Foi no primeiro dia de aulas do décimo ano, Inês chegava como sempre em cima da hora, muito por culpa de David. Quando chegou à escola já todos os amigos estavam reunidos. Inês tinha de contar a Mariana todas as novidades dos últimos dias, chamou pelos amigos ainda de costas.
-Eih sletos.
Mariana saiu a correr ao encontro dela, abraçou-a e cochichou-lhe ao ouvido.
- Quero ver a tua cara quando conheceres os dois borrachos novos que vêm para a turma.
- Ui, até quero ver essa beleza toda.
- Anda. Eu apresento-te.
 Mariana apressou-se a apresentar os novos colegas a Inês, até que o olhar de Inês se cruzou com o de João, o rapaz do jogo. Pararam ambos a olhar-se, até que Mariana chamou Inês de volta à terra.
- Inês, Inês. Acorda miúda. - Dizia puxando-lhe o braço.
-Ah... - Inês tirou os olhos de João para encarar a melhor amiga. - Que foi?
- Estás tótó de todo. As férias fazem-te mal.
- Desculpa. - Disse sorrindo.
-Ainda quero saber o que foi essa troca de olhares. - Disse cochichando ao ouvido de Inês.  Mariana dirigiu-se ao João. - João esta é a Inês de quem já vos falei, Inês é o João.
- É um prazer. - Disse João sorrindo, Inês retribuiu e avançou para o cumprimentar.
Agora, passados quase três anos a cumplicidade que os une é algo que nem sempre toda a gente compreendeu. Era a amizade que fazia com que a relação deles nunca tivesse tido uma rotura. Após largos minutos abraçados Inês foi quem quebrou o silêncio.
- Eu amo-te! – Foi a única coisa que conseguiu proferir encarando-o em lágrimas. – Não te quero perder.
            -Shhhiu. Não penses nisso agora! Vai avisar todos, tens de dar as boas notícias. - Inês sorriu-lhe.
            Depois de se recompor ligou para os pais, que estavam de férias. Quando do outro lado do telefone a mãe atendeu Inês tentou controlar o choro.
            - Mami. - Disse limpando as lágrimas. - Já saíram os resultados. Eu entrei. Em Braga.
            Do outro lado do telefone João conseguia ouvir os gritos de Marta a espalhar a notícia. Os pais ficaram logo eufóricos por ver a sua filha cumprir não um sonho mas sim um objetivo, como Inês gostava de lhe chamar. Mas como Inês não estava com vontade para muitos festejos tentou desligar depressa.
            João ficou a observá-la, não queria que ela notasse que ele estava triste, só queria que ela sentisse todo o seu apoio. Inês desligou a chamada e sentou-se ao lado de João quando ouviram bater á porta. Era David.
            - Desculpa não sabia que estavas ocupada. – Disse David.
David, irmão de Inês, em tempos tivera desavenças com João. Foram essas discussões que fizeram com que os destinos de João e Inês se cruzassem, embora David fosse totalmente contra a relação dos dois. Agora as coisas estavam mais calmas para além do mais, David ia jogar futebol na equipa de João, e como a relação de Inês e João estava cada vez mais sólida, não fazia sentido a situação deles continuar daquela maneira.
            - Fica. Tens de festejar com a tua irmã. Está na hora de nos deixarmos de parvoíces. – Um silêncio instalou-se no ar, até que Inês decidiu terminar com o momento constrangedor.
            - Entrei… Em Braga. - David ficou de queixo caído, Inês mais que sua irmã era a sua melhor amiga, ele não se queria separar dela por nada. Ao ver a cara assustada de Inês, David foi caminhando para ela e abraçou-a.
            -Eu sabia que ias conseguir. Parabéns!
            - Obrigada maninho.
            - Ah... Finalmente posso ir a todas as queimas com a irmã mais velha!
            - Até parece que não vais sempre.
            - Sim, sim! Mas fora da cidade é outra coisa. – David fez um ar de malandro mas rápido se apercebeu que não devia ter tocado no assunto. – Bem vou agora à escola. O pessoal está todo lá, vamos ver as turmas para o último ano do secundário! - David intensificou as suas últimas palavras.
            - Já pensas que és importante só por estares no último ano do secundário! – Inês tentou imitar a sua expressão.
            - Que engraçadinha! Queres vir… – David hesitou – Querem vir?
- Se está lá o pessoal… Nós vamos. – Inês sorriu perante o ar vitorioso de João que queria mais do que ninguém acabar com aquela guerra.
            - Sim, vamos. – Completou João.

***

Saíram de casa de Inês e David e rumaram á escola no carro que João recebera nos anos, um Range Rover preto que o pai já não usava e deixou para quando o filho tirasse a carta. Quando chegaram á escola Inês correu contar as novidades aos amigos que se encontravam no SPOT enquanto João e David foram ao pavilhão principal verificar as turmas.
            - Parece que … - Murmurou João.
            - Sim parece que sim … - Completou-o David.
Ficaram ambos surpresos quando constataram que iriam frequentar a mesma turma durante o próximo ano lectivo.
            - Ouve, - começou David - é verdade que eu nunca fui muito à bola contigo, quer dizer à bola até fomos algumas vezes - João sorriu perante o jeito atrapalhado e divertido de David - bem, eu nunca gostei de ti e penso que isso foi recíproco mas… eu acho que está na altura de acabar, tu és namorado da minha irmã já lá vão dois anos, vamos frequentar a mesma turma e eu vou entrar na tua equipa. Não me parece certo continuar a agir assim.
            João ficou perplexo perante tal atitude de David, David nunca lhe tinha falado assim. Alguns segundos depois João reagiu.
            - Tens razão! Então … - Pausou - Amigos? – João estendeu o braço para lhe dar um aperto de mão.
            - Eh também não é preciso exagerar! - David ficou reticente, mas João fez aquele olhar que tão bem o caracterizava, não ia desistir, e perante a sua persistência David foi obrigado a selar o aperto.
Inês preparava-se para entrar no edifício quando se deparou com aquela cena. Um enorme sorriso invadiu-lhe o rosto e foi a correr ter com eles.
            - Os meus dois rapazes … - Inês juntou-se a eles num abraço, rindo-se da sua ironia. – Já ouvi as novidades, vão ser colegas, estou tão contente por vocês.
            - Ooh que lamechice. – Disse David soltando-se do abraço. – Bem eu tenho de ir resolver uns assuntos pendentes… se é que me entendem. - Disse piscando o olho - Encontramo-nos á saída. Preciso de boleia.
            - Claro que precisas, de outra maneira não tinhas chegado aqui. – Inês tentou picar David mas este não reagiu á provocação.
            - Blá blá blá ... Até já!

***

Inês olhava a sua volta. Sabia que a partir de agora aquela já não seria mais a sua realidade. Foi ali que passou dos melhores momentos com João e com todos os seus amigos. Foram seis anos da sua vida. A sua adolescência. Os pactos e promessas, as projecções do futuro. Dirigiam-se para o SPOT e Inês não pode deixar de se lembrar das recordações que aquele sítio lhe trazia. Foi ali que se passou a primeira conversa entre eles. No fim da apresentação das turmas naquele primeiro dia de aulas. Estavam todos a ir embora mas Inês continuava como sempre à espera de David. No fim apenas sobraram os dois. E foi Inês a primeira a fazer conversa.
- Então... Estás a gostar da escola?
- Não era bem o que estava á espera, não queria nada vir, mas foi melhor do que eu pensava.
- Porquê?
- Não queria deixar o que tinha na outra escola. Os amigos e assim, deves saber como isso é.
- Nem por isso. Nunca mudei de escola. Estou aqui há três anos. Algum deste pessoal já conheço desde o infantário, acho que se algum dia tivesse de mudar de escola os tinha de levar comigo. Somos uma turma muito unida.
- Bem assim até me fazes sentir um intruso.
Inês sorriu num jeito meigo. - Nada disso. Nós recebemos muito bem toda a gente. Somos muito acolhedores. - Ambos gargalharam, João parou a olhar o sorriso de Inês. Inês desviou o olhar.
- Gostei muito de te ver jogar. - João ficou totalmente embasbacado com o que Inês dissera.
- Bem quanto a isso... e ao que se passou com o teu irmão.
- Deixa, eu não preciso de saber. Eu compreendo, a culpa também foi dele.
- Mas eu não costumo ser assim. Não sei o que me deu naquele dia. Eu não queria fazer-lhe mal.
- Eu sei, o David é que também não se controla. - Inês apercebeu-se de David ao longe e despediu-se á pressa para não ter problemas - Bem tenho de ir, gostei de falar contigo. - Inês levantou-se para ir embora mas interrompeu o percurso e tirando algo do bolso voltou-se para João - Acho que fiquei a dever-te uma. - Disse sorrindo - Até amanhã.
João ficou a vê-la partir. Olhou para a mão vendo o que Inês lhe tinha deixado e repreendeu-se "Sério? Chicletes? Onde é que eu tinha a cabeça?"

***

- Lembras-te de quan... - Inês ia lembra-lo desse episódio mas João cortou-lhe as palavras.
- Claro que lembro.
- Éramos tão atadinhos naquela altura.
- Éramos... Mas foi aí que eu fiquei a saber que tu ias ser minha namorada.
- Ai sim? Nunca me tinhas dito isso antes.
- É eu gosto de guardar algumas coisas para mim. - João pausou sorrindo - Tal como guardei aquela chiclete até hoje.
Inês olhou para o rosto embevecido do namorado.
- Estás a falar a sério?
- Porque haveria eu de mentir?
- Já nem te deves lembrar do sabor.
- Melancia.
Inês sorriu meigamente.
- Eu amo-te tanto.
- Estás a dizer isso porque queres tua chiclete de volta? - Inês cruzou os seus braços no pescoço do namorado.
- Oh pah como adivinhas-te? - Disse com os seus lábios próximos dos de João.
- Sei-te de cor. - Inês gargalhou.
- Ui filosofou agora.
- Só contigo.
- Acho bem, ai de ti que sejas assim para mais alguém.
- Hum... Assim como?
- Assim! Fofinho.
- Não sei se considere isso um elogio.
- Mas é!
João sorriu mais uma vez e juntou os seus lábios.
- Adoro-te minha tonta.
Depois de segundos agarrados Inês separou os olhares de ambos e olhou em volta.
            - Vou ter tantas saudades.
            - Não digas isso … - João tentava esconder a dor que ainda sentia por saber que em dois anos se iam apartar pela primeira vez. – Vais estar cá todo o tempo.
            - Não vai ser a mesma coisa.
            - Vai ser bem melhor. Afinal agora és uma universitária.
            - É tens razão… Mas preferia ser universitária aqui!
            - É um novo desafio. Era o que tu mais querias. Vais conseguir, e vais ver não vai custar nadinha. – Embora João não acreditasse nas suas palavras ele queria que ficasse tudo bem com Inês e não queria que ela se sentisse presa por ele, contudo ele não queria era que ela partisse. Sabia que ia ser uma dor que não conseguiria aguentar. Tentando afastar todos os maus pensamentos ele beijou-a suavemente. – Já sabes quando vais tratar das coisas?
            - Os meus pais só voltam no fim-de-semana. Esperava que o meu namorado estivesse disposto a ir comigo.
            - E achas que o teu namorado recusava um passeio?
            - Não sei mas aposto que ele me vai dizer.  
 - Claro que vou contigo minha tonta.

Sem comentários:

Enviar um comentário