Música - Breathe in breathe out (Mat Kearney)
http://www.youtube.com/watch?v=NDmnG9uTEfk
“Breathe in breathe out
Move on and break down
If everyone goes away, I will stay”
Inês não queria acreditar. Nesse momento um
montão de coisas passou-lhe pela cabeça, embora ela tivesse posto Braga como
segunda opção de entrada na faculdade, nunca acreditou que pudesse sair do
Porto. O que ela mais temia estava a acontecer. Desde que namorava com João
nunca tinham ficado separados, sempre ultrapassaram obstáculos juntos, esta
seria a primeira vez que iriam ficar longe um do outro. Quando ganhou coragem enfrentou João, as lágrimas escorreram-lhe
pelo rosto e ele apenas a abraçou. Assim ficaram durante largos minutos. Embora
não tivessem dito uma única palavra sabiam que o que lhes passava pela cabeça
era exactamente a mesma coisa. Durante os anos de namoro criaram uma cumplicidade
acima do normal, desde a primeira vez que se encontraram depois daquele jogo. Lembravam-se
tão bem. Foi no primeiro dia de aulas do décimo ano, Inês chegava como sempre
em cima da hora, muito por culpa de David. Quando chegou à escola já todos os
amigos estavam reunidos. Inês tinha de contar a Mariana todas as novidades dos
últimos dias, chamou pelos amigos ainda de costas.
-Eih sletos.
Mariana saiu a correr ao encontro dela, abraçou-a
e cochichou-lhe ao ouvido.
- Quero ver a tua cara quando conheceres os dois
borrachos novos que vêm para a turma.
- Ui, até quero ver essa beleza toda.
- Anda. Eu apresento-te.
Mariana
apressou-se a apresentar os novos colegas a Inês, até que o olhar de Inês se
cruzou com o de João, o rapaz do jogo. Pararam ambos a olhar-se, até que
Mariana chamou Inês de volta à terra.
- Inês, Inês. Acorda miúda. - Dizia puxando-lhe
o braço.
-Ah... - Inês tirou os olhos de João para
encarar a melhor amiga. - Que foi?
- Estás tótó de todo. As férias fazem-te mal.
- Desculpa. - Disse sorrindo.
-Ainda quero saber o que foi essa troca de
olhares. - Disse cochichando ao ouvido de Inês. Mariana dirigiu-se ao João. - João esta é a
Inês de quem já vos falei, Inês é o João.
- É um prazer. - Disse João sorrindo, Inês
retribuiu e avançou para o cumprimentar.
Agora, passados quase três anos a cumplicidade
que os une é algo que nem sempre toda a gente compreendeu. Era a amizade que fazia
com que a relação deles nunca tivesse tido uma rotura. Após largos minutos
abraçados Inês foi quem quebrou o silêncio.
- Eu amo-te! – Foi a única coisa que conseguiu
proferir encarando-o em lágrimas. – Não te quero perder.
-Shhhiu. Não
penses nisso agora! Vai avisar todos, tens de dar as boas notícias. - Inês
sorriu-lhe.
Depois de se
recompor ligou para os pais, que estavam de férias. Quando do outro lado do
telefone a mãe atendeu Inês tentou controlar o choro.
- Mami. - Disse
limpando as lágrimas. - Já saíram os resultados. Eu entrei. Em Braga.
Do outro lado do
telefone João conseguia ouvir os gritos de Marta a espalhar a notícia. Os pais
ficaram logo eufóricos por ver a sua filha cumprir não um sonho mas sim um objetivo,
como Inês gostava de lhe chamar. Mas como Inês não estava com vontade para
muitos festejos tentou desligar depressa.
João ficou a
observá-la, não queria que ela notasse que ele estava triste, só queria que ela
sentisse todo o seu apoio. Inês desligou a chamada e sentou-se ao lado de João quando
ouviram bater á porta. Era David.
- Desculpa não
sabia que estavas ocupada. – Disse David.
David, irmão de Inês, em tempos tivera desavenças
com João. Foram essas discussões que fizeram com que os destinos de João e Inês
se cruzassem, embora David fosse totalmente contra a relação dos dois. Agora as
coisas estavam mais calmas para além do mais, David ia jogar futebol na equipa
de João, e como a relação de Inês e João estava cada vez mais sólida, não fazia
sentido a situação deles continuar daquela maneira.
- Fica. Tens de
festejar com a tua irmã. Está na hora de nos deixarmos de parvoíces. – Um
silêncio instalou-se no ar, até que Inês decidiu terminar com o momento
constrangedor.
- Entrei… Em
Braga. - David ficou de queixo caído, Inês mais que sua irmã era a sua melhor
amiga, ele não se queria separar dela por nada. Ao ver a cara assustada de
Inês, David foi caminhando para ela e abraçou-a.
-Eu sabia que ias
conseguir. Parabéns!
- Obrigada
maninho.
- Ah... Finalmente
posso ir a todas as queimas com a irmã mais velha!
- Até parece que
não vais sempre.
- Sim, sim! Mas
fora da cidade é outra coisa. – David fez um ar de malandro mas rápido se
apercebeu que não devia ter tocado no assunto. – Bem vou agora à escola. O
pessoal está todo lá, vamos ver as turmas para o último ano do secundário! -
David intensificou as suas últimas palavras.
- Já pensas que
és importante só por estares no último ano do secundário! – Inês tentou imitar
a sua expressão.
- Que
engraçadinha! Queres vir… – David hesitou – Querem vir?
- Se está lá o pessoal… Nós vamos. – Inês
sorriu perante o ar vitorioso de João que queria mais do que ninguém acabar com
aquela guerra.
- Sim, vamos. –
Completou João.
***
Saíram de casa de Inês e David e rumaram á
escola no carro que João recebera nos anos, um Range Rover preto que o pai já
não usava e deixou para quando o filho tirasse a carta. Quando chegaram á
escola Inês correu contar as novidades aos amigos que se encontravam no SPOT
enquanto João e David foram ao pavilhão principal verificar as turmas.
- Parece que … -
Murmurou João.
- Sim parece que
sim … - Completou-o David.
Ficaram ambos surpresos quando constataram que
iriam frequentar a mesma turma durante o próximo ano lectivo.
- Ouve, - começou
David - é verdade que eu nunca fui muito à bola contigo, quer dizer à bola até
fomos algumas vezes - João sorriu perante o jeito atrapalhado e divertido de
David - bem, eu nunca gostei de ti e penso que isso foi recíproco mas… eu acho
que está na altura de acabar, tu és namorado da minha irmã já lá vão dois anos,
vamos frequentar a mesma turma e eu vou entrar na tua equipa. Não me parece certo
continuar a agir assim.
João ficou
perplexo perante tal atitude de David, David nunca lhe tinha falado assim.
Alguns segundos depois João reagiu.
- Tens razão! Então
… - Pausou - Amigos? – João estendeu o braço para lhe dar um aperto de mão.
- Eh também não é
preciso exagerar! - David ficou reticente, mas João fez aquele olhar que tão
bem o caracterizava, não ia desistir, e perante a sua persistência David foi
obrigado a selar o aperto.
Inês preparava-se para entrar no edifício
quando se deparou com aquela cena. Um enorme sorriso invadiu-lhe o rosto e foi
a correr ter com eles.
- Os meus dois
rapazes … - Inês juntou-se a eles num abraço, rindo-se da sua ironia. – Já ouvi
as novidades, vão ser colegas, estou tão contente por vocês.
- Ooh que
lamechice. – Disse David soltando-se do abraço. – Bem eu tenho de ir resolver
uns assuntos pendentes… se é que me entendem. - Disse piscando o olho -
Encontramo-nos á saída. Preciso de boleia.
- Claro que
precisas, de outra maneira não tinhas chegado aqui. – Inês tentou picar David
mas este não reagiu á provocação.
- Blá blá blá ...
Até já!
***
Inês olhava a sua volta. Sabia que a partir de
agora aquela já não seria mais a sua realidade. Foi ali que passou dos melhores
momentos com João e com todos os seus amigos. Foram seis anos da sua vida. A
sua adolescência. Os pactos e promessas, as projecções do futuro. Dirigiam-se
para o SPOT e Inês não pode deixar de se lembrar das recordações que aquele sítio
lhe trazia. Foi ali que se passou a primeira conversa entre eles. No fim da
apresentação das turmas naquele primeiro dia de aulas. Estavam todos a ir
embora mas Inês continuava como sempre à espera de David. No fim apenas
sobraram os dois. E foi Inês a primeira a fazer conversa.
- Então... Estás a gostar da escola?
- Não era bem o que estava á espera, não
queria nada vir, mas foi melhor do que eu pensava.
- Porquê?
- Não queria deixar o que tinha na outra
escola. Os amigos e assim, deves saber como isso é.
- Nem por isso. Nunca mudei de escola. Estou
aqui há três anos. Algum deste pessoal já conheço desde o infantário, acho que
se algum dia tivesse de mudar de escola os tinha de levar comigo. Somos uma
turma muito unida.
- Bem assim até me fazes sentir um intruso.
Inês sorriu num jeito meigo. - Nada disso. Nós
recebemos muito bem toda a gente. Somos muito acolhedores. - Ambos gargalharam,
João parou a olhar o sorriso de Inês. Inês desviou o olhar.
- Gostei muito de te ver jogar. - João ficou
totalmente embasbacado com o que Inês dissera.
- Bem quanto a isso... e ao que se passou com
o teu irmão.
- Deixa, eu não preciso de saber. Eu
compreendo, a culpa também foi dele.
- Mas eu não costumo ser assim. Não sei o que
me deu naquele dia. Eu não queria fazer-lhe mal.
- Eu sei, o David é que também não se
controla. - Inês apercebeu-se de David ao longe e despediu-se á pressa para não
ter problemas - Bem tenho de ir, gostei de falar contigo. - Inês levantou-se
para ir embora mas interrompeu o percurso e tirando algo do bolso voltou-se
para João - Acho que fiquei a dever-te uma. - Disse sorrindo - Até amanhã.
João ficou a vê-la partir. Olhou para a mão
vendo o que Inês lhe tinha deixado e repreendeu-se "Sério? Chicletes? Onde
é que eu tinha a cabeça?"
***
- Lembras-te de quan... - Inês ia lembra-lo
desse episódio mas João cortou-lhe as palavras.
- Claro que lembro.
- Éramos tão atadinhos naquela altura.
- Éramos... Mas foi aí que eu fiquei a saber
que tu ias ser minha namorada.
- Ai sim? Nunca me tinhas dito isso antes.
- É eu gosto de guardar algumas coisas para
mim. - João pausou sorrindo - Tal como guardei aquela chiclete até hoje.
Inês olhou para o rosto embevecido do
namorado.
- Estás a falar a sério?
- Porque haveria eu de mentir?
- Já nem te deves lembrar do sabor.
- Melancia.
Inês sorriu meigamente.
- Eu amo-te tanto.
- Estás a dizer isso porque queres tua
chiclete de volta? - Inês cruzou os seus braços no pescoço do namorado.
- Oh pah como adivinhas-te? - Disse com os
seus lábios próximos dos de João.
- Sei-te de cor. - Inês gargalhou.
- Ui filosofou agora.
- Só contigo.
- Acho bem, ai de ti que sejas assim para mais
alguém.
- Hum... Assim como?
- Assim! Fofinho.
- Não sei se considere isso um elogio.
- Mas é!
João sorriu mais uma vez e juntou os seus
lábios.
- Adoro-te minha tonta.
Depois de segundos agarrados Inês separou os
olhares de ambos e olhou em volta.
- Vou ter tantas
saudades.
- Não digas isso
… - João tentava esconder a dor que ainda sentia por saber que em dois anos se
iam apartar pela primeira vez. – Vais estar cá todo o tempo.
- Não vai ser a
mesma coisa.
- Vai ser bem
melhor. Afinal agora és uma universitária.
- É tens razão…
Mas preferia ser universitária aqui!
- É um novo
desafio. Era o que tu mais querias. Vais conseguir, e vais ver não vai custar
nadinha. – Embora João não acreditasse nas suas palavras ele queria que ficasse
tudo bem com Inês e não queria que ela se sentisse presa por ele, contudo ele não
queria era que ela partisse. Sabia que ia ser uma dor que não conseguiria
aguentar. Tentando afastar todos os maus pensamentos ele beijou-a suavemente. –
Já sabes quando vais tratar das coisas?
- Os meus pais só
voltam no fim-de-semana. Esperava que o meu namorado estivesse disposto a ir
comigo.
- E achas que o
teu namorado recusava um passeio?
- Não sei mas
aposto que ele me vai dizer.
- Claro
que vou contigo minha tonta.

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