sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Capítulo 1 – “Eu vou estar sempre contigo”


Música – I’ll stand by you (The pretenders) - Glee  version                  http://www.youtube.com/watch?v=--lw9yST1g0


“I’ll stand by you
Won’t let nobody hurt you
I’ll stand by you”





*Duas semanas antes*


- Então estás pronta para ver os resultados? – Perguntou o João.
- Sim. – Afirmou pouco convicta. – Quer dizer, estou nervosa, ainda bem que estás aqui comigo amor. – Respondeu Inês.
Estavam os dois, João e Inês, no quarto desta, deitados sobre a cama dela. O quarto de Inês era grande. No meio do quarto estava a cama que não era grande como as camas de casal, mas também não era tão pequena como as camas de solteiro, numa das paredes encontrava-se a janela de onde se podia ver a rua, ao lado da janela estava a secretária com o computador, onde ela costumava estudar, na parede perpendicular a essa estava o guarda-roupa, e ao lado uma estante onde se encontrava a televisão e uma aparelhagem, bem como cd’s, quadros com fotos, alguns dos seus peluches e livros, pois a Inês gostava muito de ler. Ao lado da estante estava a porta que possuía alguns cabides, onde ela gostava de colocar a mochila e as suas carteiras. Na parede em frente a esta, onde ficava encostada a cabeceira da cama, havia uma mesa-de-cabeceira, esta tinha sobre ela um candeeiro, um despertador e um porta-retratos com uma fotografia de Inês e João, por cima da cama estava fixado um quadro onde se lia “Inês 29 de Abril de 1994”, este quadro onde se podia ler o seu nome e a sua data de nascimento tinha sido oferecido pela sua prima mais velha quando ela fez catorze anos, era um presente que ela prezava muito. E na outra parede a esta estava uma pequena cómoda com quatro gavetas e um espelho, por cima da cómoda estavam mais dois porta-retratos um com uma foto de Inês e o irmão e outra onde se via Inês, David e os seus pais quando os irmãos ainda eram pequenos. Esta última parede possuía ainda um espaço onde Inês pôs um grande placard de cortiça, aí colocava algumas coisas especiais para ela, como fotos com os amigos, com o namorado, com o irmão ou com os primos, recortes de jornal sobre o seu clube, o Benfica, ou de alguns dos seus cantores e bandas favoritas, horários da escola ou coisas de que se devia lembrar, e ainda letras de músicas ou frases que a inspiravam, poemas, recados dos amigos e bilhetes que João de vez em quando gostava de lhe mandar e que ela amava receber.
Sobre a cama Inês descansava a cabeça no peito do namorado, com a mão direita João brincava no cabelo de Inês e mantinham os dedos das mãos esquerdas entrelaçados.
- Eu vou estar sempre contigo. – Disse-lhe João com uma sinceridade que sempre lhe foi habitual e um brilho nos olhos que não escapava nem aos mais distraídos. João estava a dizer a verdade e Inês sabia-o perfeitamente.
- Espero bem que sim. – Brincou Inês, sem deixar de sorrir.
Inês sempre gostou daquelas declarações do namorado, faziam com que se sentisse amada. Agora tinham dezoito anos, mas conhecem-se desde os quinze, altura em que João entrou para a escola secundária Eça de Queiroz para a turma do 10º C, a mesma turma a que Inês pertencia. Desde logo se tornaram bons amigos gostavam de falar sobre vários assuntos, tinham muitas coisas em comum. Passados oito meses, em Maio de 2010 começaram a namorar, tinham na altura dezasseis anos. Não eram apenas namorados, eram companheiros, amigos, aliás melhores amigos, eram muito cúmplices e poucas foram as vezes em que se chatearam.
- Então vamos lá, liga o computador. – Disse João que também estava ligeiramente nervoso, com a sensação de que alguma coisa iria mudar e isso deixava-o inseguro.
Inês levantou a cabeça e deu um beijo rápido a João, sentou-se na borda da cama e ficou a olhar para o namorado, lembrava-se perfeitamente do dia em que o conheceu. Foi num domingo à tarde, no final de Agosto de 2009. Inês tinha ido ver um jogo de futebol do irmão mais novo, David, na altura com treze anos, tinha por hábito ir ver os jogos dele com o pai. O jogo não tinha corrido mal era o primeiro da época, e logo contra o seu maior rival, no final acabaram empatados 2-2, mas esse resultado não agradava a nenhuma das equipas o que se revelou durante todo o jogo. Os jogadores estavam impacientes, todos queriam ganhar e mostrar aos respectivos treinadores que podiam apostar neles para o resto da época e até quem sabe subir de escalão, ambas as equipas eram boas e o jogo estava a ser muito renhido, mas os rapazes queriam mais e estavam a cometer muitas faltas.
Quase no final do jogo David sofreu uma falta, ficou estendido no chão, no entanto o árbitro não assinalou qualquer irregularidade e mandou continuar a jogada, David não gostou dessa decisão e correu atrás do rapaz para lhe tentar tirar a bola, não teve muito sucesso, o outro rapaz era muito bom jogador, era mais velho e um pouco mais alto que David, mas David não queria dar o braço a torcer e como não queria perder a oportunidade de se vingar rasteirou o outro jogador que caiu no chão e fez mais fita do que a que era necessária, desta vez o árbitro não fechou os olhos e assinalou a falta dando a David um cartão amarelo, este ficou ainda mais furioso.
O jogo foi decorrendo e cada vez que se encontrava com o seu mais recente inimigo empurrava-o ou era empurrado. Nas bancadas a irmã e o pai não estavam a gostar nada daquela atitude, assim como o treinador e os colegas que assistiam ao jogo no banco de suplentes. Faltavam pouco mais de cinco minutos para acabar o jogo e os dois adversárias, David dirigia-se rapidamente para a grande área, estava muito bem colocado e poderia fazer o golo que daria a vitória para a sua equipa, mas de novo o jogador apareceu e com uma falta feia conseguiu tirar-lhe a bola, o árbitro assinalou, mas apenas mostrou cartão amarelo, David achou injusto, tinha sido uma falta perigosa e qualquer um poderia acha-la merecedora de cartão vermelho directo, David reclamou com o árbitro que não lhe deu ouvidos, o outro rapaz apareceu por trás dele e com um gesto mandou-o calar, David não aguentou mais e envolveram-se numa pequena luta que resultou em expulsão para os dois. À medida que se dirigiam para os balneários viram Inês que se levantou do seu lugar aproximando-se das grades do campo de futebol e com um gesto de encolher de ombros perguntava ao irmão o que se tinha passado. Claro que o outro rapaz não sabia que Inês era irmã de David e ao vê-la sorriu-lhe, com o seu mais bonito sorriso, foi a primeira vez que Inês viu João.
Inês suspirou, as lembranças desse dia faziam-na sorrir. Levantou-se da cama e foi sentar-se na cadeira em frente à secretária onde se encontrava o computador e ligou-o, enquanto esperava que este se ligasse, rodou na cadeira ficando de frente para o namorado que continuava deitado na sua cama e continuou a conversa.
- Tenho tanta pena que não possas concorrer este ano. – Suspirou Inês.
- Também eu, mas eu sou burro não é, andei a brincar e agora tenho que melhorar as notas para poder entrar em Direito. – Entristeceu-se.
- Tu não és burro amor, não digas isso, eu também andei meia distraída este ano. – Concluiu tentando disfarçar a frustração e a tristeza que também a invadiam.
Assim como o objectivo de Inês sempre fora ser psicóloga, o sonho de João sempre foi ser advogado, apesar de também gostar muito de jogar futebol, e de ser um bom jogador, isso sempre foi para ele um passatempo, que lhe dava muito prazer isso é certo, mas nunca o considerou uma opção de carreira.
Ambos tinham os seus sonhos e caminhos bem definidos, durante o namoro tinham feito planos para quando entrassem na universidade, tentariam ficar no Porto para ser mais fácil, assim poderiam ficar perto um do outro e das respectivas famílias, mas agora que o sonho estava para se tornar realidade as coisas não estavam a acontecer como o planeado, João distraiu-se demais com o futebol e as suas notas baixaram drasticamente, sendo assim obrigado a repetir o ano. As notas de Inês também baixaram, mas ainda poderia tentar a sua sorte nas universidades, a sua primeira opção foi o Porto e os dois esperavam ansiosamente que ela conseguisse entrar na sua cidade natal, assim apesar de o sonho de João ter que ser adiado por um ano, pelo menos tinha a namorada por perto para o apoiar.
- Esse teu computador já está a pedir a reforma, está cada vez mais lento. – Disse ele para mudar de assunto.
Ainda se sentia mal, por se ter baldado tanto durante o ano, talvez se tivesse gerido melhor o tempo isso não tivesse acontecido. O futebol roubou-lhe mais tempo do que o normal, pois a equipa dele estava prestes a subir de divisão e os jogadores tinham que se esforçar mais. Apesar de o futebol não ser uma opção de futuro para ele, dava-lhe muitas alegrias e não tencionava largá-lo, quando jogava futebol podia libertar todas as suas frustrações, era um escape para os problemas do dia-a-dia. No entanto esse hobby estava a tomar-lhe demasiado tempo o que não ajudava nos estudos e João descurou a escola durante a maior parte do ano. Quando combinava estudar com a namorada para tentar subir as notas, tinha que fazer um esforço para se manter concentrado, era difícil estar ao pé dela e apenas estudar.
- É, tenho que ver se os meus pais estão dispostos a oferecer-me um novo. – Sorriu Inês, pouco convencida.
A Inês também se sentia culpada pelo namorado, podia tê-lo ajudado mais e assim talvez ele não tivesse que repetir o ano, podia ter insistido mais para ele estudar, podia ter recusado os convites dele, mas isso, ela também não queria, já passava tão pouco tempo com ele, não queria desperdiçar os poucos momentos que tinham juntos. Apesar de estudarem na mesma escola e até de pertencerem à mesma turma era difícil para eles estarem sozinhos, apesar de João jogar futebol num clube regional, não dispensava as partidas de futebol durante os intervalos com os amigos, para além disso ainda fazia parte da Associação de Estudantes da Escola Eça de Queiroz. Por sua vez Inês fazia parte de um programa em que os alunos mais velhos davam explicações aos alunos mais novos e era bem sucedida na sua tarefa, os alunos do terceiro ciclo gostavam de tirar dúvidas com ela pois esta tinha um jeito especial de explicar as coisas. Três vezes por semana, depois das aulas João tinha treino de futebol e Inês jogava na equipa de voleibol da escola. Os fins-de-semana também eram preenchidos, João tinha os seus jogos de futebol e Inês gostava de os ir ver, no entanto por vezes, era difícil escolher entre os jogos do namorado e os jogos do irmão, que disputavam a sua atenção. Em resumo, o tempo que tinham só para eles era escasso e por vezes era utilizado para Inês explicar as matérias ao namorado.
- Pode ser que to ofereçam como prenda por entrares na universidade. – Disse-lhe o João.
- Ok, já está ligado – proferiu e olhou-o com ar de menina mimada – amor, podes ser tu a ver, estou muito nervosa.
- Está bem, levanta-te daí, minha nervosinha. – Disse João enquanto se sentava na cadeira dela e abria a página da internet onde estavam os resultados das entradas na universidade.
A namorada de João sempre se mostrou confiante, era uma miúda corajosa e enfrentava os problemas de frente, essa é uma das características que fez com que João se apaixonasse por ela quase de imediato. João lembra-se muito bem do dia em que a viu pela primeira vez. Foi em Agosto de 2009, era o primeiro jogo da época e ele tinha recebido a notícia que iria mudar de escola, ia deixar os amigos de sempre e mudar-se para uma escola desconhecida e isso não lhe agradava nada, ele estava agitado o que se notava na sua maneira de jogar.
O jogo não estava a ser fácil e a equipa dele estava empatada 2-2, para além disso um dos miúdos da outra equipa era muito bom e estava sempre a fazer jogadas perigosas, a equipa dele não podia perder logo no primeiro jogo, não era um bom pressagio para o resto da época, então tentou travar o rapaz de várias maneiras, mas não estava nos seus melhores dias e o jogo não estava a correr bem para ele, não teve outro remédio senão recorrer às faltas, mas o miúdo não se deixou ficar e retribuía na mesma moeda.
Faltava pouco tempo para o fim do jogo e o outro rapaz estava a aproximar-se muito perigosamente da área ninguém o parava e João cometeu uma falta feia, tinha a noção que ia ser expulso o miúdo ficou magoado, mas o árbitro apenas mostrou cartão amarelo, João pode suspirar de alívio, mas o miúdo não se calou e foi protestar com o árbitro, João mandou-o calar colocando o dedo sobre os lábios e o rapaz não se ficou e empurrando-o, João empurrou-o de volta e envolveram-se numa luta que culminou na expulsão dos dois.
Enquanto se dirigia para os balneários viu nas bancadas uma rapariga que se levantou e apoiou-se nas grades, pensou que ela estaria a olhar para ele e sorriu-lhe. Por ter ido para os balneários mais cedo ficou pronto mais rápido que os colegas e como não conseguia ouvir mais protestos pelo seu mau jogo resolveu sair dos balneários e esperar os outros perto das carrinhas que os levariam de volta a casa. Já no estacionamento viu a tal rapariga encostada a um carro, João não podia perder a oportunidade de ir falar com ela, mas não tinha assunto, não sabia o que dizer, mesmo assim foi-se aproximando dela e quando estava quase a virar costas e a desistir a rapariga virou-se e encarou-o, ele ficou sem palavras, mas não podia ficar lá a fazer figura de parvo, então abriu a boca e deixou sair a primeira coisa que lhe veio à cabeça “Tens chicletes?”, perguntou ele, a rapariga sorriu-lhe e quando ia responder ouviu-se uma voz que surgiu nas costas de João, “Precisas de alguma coisa ó palhaço?”, perguntaram-lhe, João virou-se e deparou-se com o rapaz que tinha enfrentado no jogo, ainda era um miúdo devia ter uns doze ou treze anos, mas encarou-o sem medo algum, e continuou “Inês este atrasado está a chatear-te?”, “Não” disse a rapariga simplesmente, mas o miúdo continuou “Sai daqui palerma já não te chegou estragares-me o jogo?”, João não teve tempo de responder, pois chegou um homem “Já chega David” disse, e entrou no carro, já lá dentro abriu a janela e disse “Inês entra no carro e trás o teu irmão se faz favor.” Entraram os dois no carro e este arrancou, João ficou a vê-los afastar-se e por um momento quando o carro já ia longe teve a sensação de vê-la olhar para trás e sorrir. Inês era a irmã do rapaz que ele tinha maltratado no campo, ficou a pensar se voltaria a vê-la em breve ou teria que esperar pela segunda volta a encontrar no jogo contra o seu irmão. De qualquer forma a rapariga nunca mais lhe saiu do pensamento, Inês era o nome dela.
Depois de João ter ocupado o lugar dela em frente ao computador, Inês foi sentar-se na cama e começou a roer as unhas tal era o seu estado de nervosismo. Queria muito entrar em Psicologia, era o seu sonho e estava prestes a saber se este ia ser concretizado ou não.
- Então amor, boas notícias? – Perguntava cada vez mais ansiosa.
- Calma amor. – Dizia ele, preocupado.
Ele pesquisava o nome dela na lista, encontrou-o e abriu o link, quando viu os resultados sentiu o chão a fugir-lhe dos pés, não sabia como reagir àquilo. Rodou na cadeira e ficou de frente para ela.
- Parabéns meu amor, entras-te em Psicologia. - Disse tentando mostrar algum entusiasmo.
- A sério, estás mesmo a falar a sério? – Perguntou meio incrédula.
- Claro que sim, tu entras-te em psicologia, parabéns meu amor, tu mereces. – Disse o João enquanto se levantava para abraçar a namorada.
Ela ria enquanto o abraçava, notava-se que estava muito feliz, era o realizar de um sonho e apesar de ela sempre ter sido boa aluna, tinha algumas dúvidas em relação às suas notas, que baixaram neste último ano. Ele estava contente por ela. Inês soltou-se do abraço dele e beijou-o, estava mesmo feliz e queria partilhar essa sua alegria com ele.
- Ainda bem, meu anjo, deste-me a melhor notícia dos últimos tempos, estava mesmo nervosa. – Disse ela ainda um bocado eufórica.
- Eu estou muito feliz por ti, meu amor, mas … - disse  João, não conseguindo continuar.
- Mas o quê? – Perguntou.
- Mas … - Parou mais uma vez.
- Continua João Pedro. – Pediu ela.
- Tu entras-te em Braga.

1 comentário:

  1. O melhor protejo de sempre.
    O melhor capitulo da história!
    adorei, espero que continuem.
    Beijos

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