sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Capitulo 4 – Estás linda!


 Música - For a change - Pitt Broken 
http://www.youtube.com/watch?v=XfkmHDcK35w

But I wonder 
Will you be there for a change



Inês não demorou a perceber quem era e petrificou quando o viu, João saltou do carro num pulo. Inês copiou-lhe os movimentos saindo também do carro e colocando-se junto deles.
- O que fazes aqui? – João abraçou durante momentos o homem que se havia aproximado do carro até que se soltou do abraço e dando a mão a Inês prosseguiu. - Pai, esta é a Inês. A minha namorada.
Por momentos Inês nem conseguiu falar, todas as imagens que tinha daquele homem eram de uma pessoa fria e objectiva, parecia que não tinha sentimentos. Talvez fosse uma capa protectora para imprensa mas se era de facto resultava perfeitamente. José era treinador do Sport New York and Goodstay. Era neste momento um dos melhores treinadores da América, embora muito pouco conhecido e valorizado em Portugal. Embora filho de pais portugueses José nasceu em Estados Unidos, mas veio para Portugal em criança mantendo sempre uma vida entre os dois países e há pouco mais de quatro anos estava mais presente no continente americano devido ao clube. José era extremamente atraente e não aparentava os 45 anos de idade, tinha um fato preto vestido e uma camisa rosada, calçava uns sapatos pretos envernizados e no pulso um belo relógio, no rosto aparecia a barba de três dias que lhe dava um ar completamente irreverente. Inês estava ali bem na sua frente a ser-lhe apresentada como namorada do seu filho.
- Muito prazer. - Estendeu-lhe a mão para o cumprimentar mas foi completamente reprovada. José avançou e deu-lhe dois beijos. Um sorriso formou-se nos seus lábios.
- Oh Inês! Finalmente a conheço, não entendo como só agora fomos apresentados. – Ele olhou para João numa de brincadeira provocadora. - Já ouvi falar tanto de si.
Inês soltou um sorriso agora sem qualquer medo. José mudara completamente de expressão e mostrava ser um verdadeiro gentleman.
- Eu também já ouvi falar muito de si. – Inês ironizou um pouco, como era possível não ter ouvido falar?
Um silêncio avassalador deteve-se entre os três e Inês desejou não ter dito aquelas palavras, até que José se desfez de riso.
- Já vi que tem um sentido de humor apurado Inês. É realmente um prazer conhece-la.
- O prazer é todo meu.
- Bom, agora vamos tratar de assuntos importantes. A tua mãe pediu para dizer que logo á noite a Inês vai jantar lá a casa!
- Mas isto é assim? E se nós já tivéssemos planos para a nossa noite? – Ripostou João, começando uma brincadeira.
- Nós não vos roubamos a noite toda. Concorda Inês?
- Bem eu e o meu irmão…. – Tentou começar Inês tendo sido interrompida por José.
- Óptimo, ainda melhor! Leve-o também, iria ser um prazer. Eu já o vi jogar, e gostei do que vi, assunto não nos irá faltar. A não ser que o seu irmão não queira.
David aproximara-se, e sem se aperceber quem se encontrava com eles mando logo a sua piada para o ar.
- Estavam a falar de mim? – Disse David num sorriso travesso que tão depressa se havia formado como se desfez quando José se virou de frente para ele. Um dos seus maiores ídolos mesmo ali e ele completamente embasbacado. – ahauhaah... José?
- Oh David. O meu filho João já me falou bastante de si, tive oportunidade de o ver jogar e fiquei surpreendido, parabéns. Estávamos a combinar um jantar logo á noite, queria que te juntasse a nós.
Pela cabeça baralhada de David correram muitas perguntas extremamente descabidas. Sabe o meu nome, já me viu jogar, está a convidar-me para jantar, é pai do João? David estava surpreso, como podia José ser pai de João? E Inês nem lhe tinha contado nada.
- Como disse? Seu filho?
- Sim o joão. - José pausou. - Estou a convidá-lo para jantar em minha casa!
- Ah sim, sim claro que aceito. É um autêntico prazer.
- Sendo assim encontramo-nos logo então. - José esboçou um sorriso perante o ar de David. - E Inês foi sem dúvida um prazer conhece-la. - Depois de se despedir de todos rumou ao seu Audi.

- Podem explicar-me o que se passou aqui? - Disse João incredulo ainda olhando para a sua mão que momentos antes havia sido apertada pela de José quando este lhe deu um aperto de mão.
João e Inês riam-se na cara de David.
- Então vamos logo jantar a casa dos meus pais. – Disse João num tom torcista.
- Ah sim, claro que sim! E só por acaso o teu pai é o José Meiguinho. - Inês e João continuavam a rir. - Isso claro, gozem mais com a minha cara, porque é que nunca me tinham dito nada?
- Tu nunca perguntas-te nada. – disse Inês deitando-lhe a língua de fora.
João nunca gostou de ser apresentado como o filho de José Meiguinho por isso sempre assinara como João Pereira. Desde o início da relação que João pediu a Inês que não contasse nada, embora João soubesse da grande admiração de David pelo pai o facto de não se dar muito bem com ele nunca permitiu ter á vontade para lhe contar. Inês respeitou a sua vontade, mantendo sempre em segredo as origens do namorado.
- Então e agora? Eu nem sequer tenho um fato. Como é que vou aparecer em casa dele assim vestido.
- Não te preocupes… - João estava a gostar do ar preocupado de David e decidiu prolongar a brincadeira.
- Não? – David mirou-o com cara de espanto.
- Eu empresto-te um!
- A serio? Obrigada. Afinal até és um bom cunhado! – Inês e João desataram a rir na cara dele.
- Achas mesmo que é necessário um fato? – João estava a adorar fazer troça dele. – Afinal vais só jantar a casa do teu bom cunhado.
- Claro! - David não estava a achar piada pois a conversa estava a passar-lhe ao lado, e os risinhos dos dois estavam a deixa-lo ainda mais fulo. – Do meu cunhado e do seu PAI, que só por mera casualidade é o JOSÉ MEIGUINHO.
- Deixa de ser totó. – Inês deu-lhe uma sapatada na cabeça. – É só um jantar. Se começares com essas coisas ainda ficas em casa.
- Não! Não, isso é que não. Não posso perder a oportunidade de negociar um contrato com o Goodstay.
- Parvalhão. – Ripostou Inês. - Muita sorte tens tu em estar no Malvai, nem sei como eles quiseram um perneta como tu.
- Oh sim. E o que é que tu percebes de futebol? Eu vou ser o próximo Cristiano Ronaldo. – Eles estavam já totalmente embrenhados na picardia de irmãos.
- Por mim maninho estás á vontade, desde que eu não seja a próxima Ronalda. – Todos se desataram a rir com aquele comentário de Inês. – Bem o melhor mesmo é irmos para casa, tenho de me arranjar para o jantar com os sogrinhos. – Inês dirigiu um sorriso tímido a João e beijou-o vagarosamente nos lábios.
- Pronto, pronto. Tinha de ser, tinham de começar com o marmelanço á minha frente. – David olhou para eles com uma cara de quem estava enjoado.
- Isso é tudo inveja? – João interrompeu deixando ambos espantados com aquela intervenção.
- Vou ter de concordar maninho. Não te tenho visto com ninguém ultimamente. O teu charme já não as atrai?
- É que nem entres por ai! – David fez uma cara de falso aborrecido. – Se não tens visto é porque andas com os olhinhos tapadinhos.
- Oh sim! É mesmo isso.
- É, é isso. – David tentou acabar ali com o assunto. – Bem não querias ir embora!
- Sim vamos embora que o menino já está a ficar chateadinho coma conversa.
David entrou no carro sem pronunciar mais nada e eles seguiram-lhe o exemplo. João conduziu até casa da namorada por entre as brincadeiras de David e de Inês, antes de partirem Inês não deixou escapar a oportunidade de registar o momento e obrigou o irmão e o namorado a colocarem os seus melhores sorrisos na cara para a fotografia. Seguiram viagem, João sempre calado e pensativo pois a cada segundo que passava mais ele sentia que Inês estava mais longe. Assim que estacionaram, David saltou do seu lugar.
- Bem, eu vou tomar banho primeiro se não esta já se sabe como é.
João e Inês deixaram-se ficar. Inês contemplava a casa que em breve iria deixar para trás tal como tudo ali no Porto que passaria a ser apenas a sua morada de fim-de-semana. João ficou a olha-la e a tentar perceber o que lhe passaria pela cabeça.
- Posso saber em que estás a pensar?
Inês virou-se para ele e este pode perceber que uma lágrima lhe caia pelo rosto. João limitou-se a limpa-la e a acolher Inês nos seus braços. E assim ficaram os minutos seguintes. E aquele silêncio tinha tanto de cúmplice como de angustiante. Ambos sabiam o que queria dizer e nenhum deles estava preparado para isso. Ao fim de largos minutos Inês quebrou o silêncio.
- Promete que nunca te esquecerás de mim.
-Inês! – João pegou-lhe no queixo obrigando-a a olhar para si. – Isso seria impossível. Nós prometemos que estaríamos sempre em qualquer mudança.
Inês ficou mais do que satisfeita com a sua resposta, sorriu-lhe e juntou as suas bocas calmamente, sem qualquer pressa. Afinal aquilo que eles menos queriam era pressa, gostavam de estar ali assim daquele jeito. Durante todo o verão fizeram programas juntos de como iria ser a universidade. Sempre planos de como seria a partir de agora… no Porto. Embora a hipótese de entrar em outra universidade fosse também provável Inês nunca tinha pensado nisso. João deu por si a pensar no disparate que eles estavam a fazer, Braga ficava a pouco mais de 55 km do Porto. Além disso a semana passava a correr. Mas ambos tinham a certeza, que a partir de agora nada iria ser como antes.
Deixaram-se estar mais uns minutos amarrados um ao outro até que mais uma vez foram interrompidos. David apareceu já de banho tomado e com os seus caracóis bem arranjados. Vinha com umas calças de ganga, um pulôver azul-escuro da Lacoste, que o pai lhe oferecera no aniversário passado, tinha umas sapatilhas que Inês não reconhecera, umas Vans pretas com certeza novas, e estava a colocar no pulso um relógio oferecido por Inês, também ele preto. Desta vez David esmerara-se. Saiu do carro com o intuito de mandar uma piadinha mas outra coisa lhe chamou mais a atenção.
- Credo rapaz despejaste o frasco de perfume? – Inês tossia para o deixar ainda mais irritado.
- Deixa-te de coisas. Foram só umas gotinhas. Mas digam lá estou bem assim? - João girou sobre o seu próprio eixo.
- Sim, sim. Estás óptimo! – Inês passou por eles entrando em casa e dando uma palmada no rabo de David. – Vou tomar um banhinho rápido. – Disse Inês já subindo as escadas que a dirigiam ao quarto. – Fica á vontade amor.
João e David estavam os dois sozinhos na sala. O silêncio tornara-se incomodativo. Ainda não tinham confiança para falarem como amigos. Ambos pensavam em desfazer aquela mudez até que ouviram a voz de Inês a desafinar no banho. Olharam um para o outro e num repente desataram-se a rir. David optou então por deixar João mais á vontade visto que também ele estava um pouco constrangido.
- Vai uma partidinha? – David saltou entre os sofás e agarrou num jogo de playstation.
- Não acredito. – João avançou para ele e agarrou no jogo. – PES13 como conseguiste?
- Ah pois é Bebé! Tenho os meus contactos. – David montara já os comandos acomodando-se no sofá.
- Bem tenho mesmo de vir cá mais vezes! – Disse João sentando-se também.
- Até parece que não passas cá a vida! – David gozou-o.
- Sim mas…
- Sim mas é para estar com a Inezinha! – Riram os dois embora João estivesse um pouco acanhado. – Mas podes vir jogar mais vezes, não tenho muito com quem jogar todos têm medo de perder aqui com o craque. – Gargalharam de novo em conjunto. - Que tal um joguinho entre Benfica e Real?
- Mas isto é assim? Escolhes tu tudo? – Disse João rindo-se, pois se fosse ele também faria aquelas escolhas.
- Oh se quiseres outra tudo bem. – João acenou que não com a cabeça. – Então Real ou glorioso?
- Benfica claro.
- Desculpa mas o Benfica está para mim.
- Então se já tinhas escolhido porque perguntas-te?
- Ah parece mal não dar opção de escolha aos convidados.
João ainda ia ripostar mas viu que o jogo já começava e agarrou-se ao comando. Estava renhida a partida após largos minutos ainda se encontravam a zeros. Por entre discussões, brigas e brincadeiras relativas ao jogo ouviram então os saltos de Inês a bater nas escadas. Desviaram ambos o olhar para ela e João levantou-se, largou o comando e foi ao seu encontro. Abraçou-a e sussurrou-lhe ao ouvido.
- Estás linda! – E ficaram assim abraçados. Ao fundo da sala no sofá ouviram ainda David a gritar “goooooolo”. Mas nem isso os fez largar o abraço.  

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