sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Capítulo 3 – “Foste a melhor coisa que já me aconteceu”



Música – “Sorte grande” – João Só & Lúcia Moniz
http://www.youtube.com/watch?v=Lj08ruTRADI

“Já se passaram alguns anos
Nem sequer vinhas nos meus planos
Saíste-me a sorte grande”



Estavam os dois sentados no banco vermelho, aquele banco em que se tinham sentado tantas e tantas vezes durante aqueles dois anos de namoro. Já antes de começarem a namorar era costume ficar por lá á conversa com os amigos. Aquele era oficialmente o banco do 12ºC, ou o SPOT como muitos gostavam de lhe chamar, era lá que a turma se encontrava todos os dias de manhã enquanto esperavam que todos chegassem, era lá que se encontravam nos intervalos, e quando se separavam por alguma razão, sabiam que se voltassem ao SPOT estaria sempre lá alguém.
Inês e João estavam encostados um ao outro, ela com a cabeça no ombro dele, e as suas mãos entrelaçadas por cima da perna dela. Estavam assim, os dois distraídos, quando ouviram uma voz bem familiar.
- Oh pombinhos, nem nas férias se largam? Nunca vi tanto mel. Quando é que tiram férias um do outro? – Perguntou a Mariana, sentando-se no meio dos dois.
- Agora vamos ter muito tempo para isso – disse João, numa voz tão baixa que mal se percebeu.
Os olhos de Inês brilharam quando ouviu a voz de Mariana, facto esse qua não passou despercebido a João, a sua namorada era muito transparente para ele. Mariana e Inês eram amigas desde o jardim-de-infância, conheceram-se com três anos e desde aí a amizade só tem aumentado. As raparigas "partilhavam tudo, menos os namorados" como elas mesmas costumavam dizer, não havia segredos entre elas, e sempre se ajudavam mutuamente. Tinham chorado muitas vezes no ombro amigo da outra, estavam presentes tanto nos momentos bons como nos maus, partilharam segredos que não contaram a mais ninguém, conheciam-se verdadeiramente uma à outra e aceitavam-se com todos os defeitos e qualidades que elas, conscientemente, sabiam possuir, eram acima de tudo irmãs.
- Eu gostava muito de saber porque é que uma certa melhor amiga passa todo o mês de Agosto sem dar notícias. – Disse ironicamente a Mariana.
- De certeza que essa melhor amiga não teve culpa. – Inês entrou na brincadeira.
- Aposto que essa melhor amiga esteve tão entretida com o namorado que nem teve tempo para um telefonema, uma sms, um email. – Continuou a Mariana.
- Em primeiro lugar, Dona Mariana, foi a senhora que foi de férias durante um mês para o Brasil e mal se despediu, eu mandei emails quase todos os dias, tentei ligar várias vezes mas ninguém atendeu, até que desisti, e da mesma maneira que eu não me lembrei de ti, tu também não fizeste muita questão de te lembrares de mim. – Concluiu Inês com um pouco de mágoa, adorava a Mariana, era a sua melhor amiga desde os três anos, mas não gostava quando ela começava com as suas brincadeiras parvas, principalmente quando não tinha razão.
- Oh, já estão as comadres chateadas. – Tentou brincar o João, mas sabia que o comentário da Inês tinha sido sério, ela tinha comentado com ele que não gostava desta ausência da Mariana, não gostou que ela se tivesse ido embora sem se despedir e não gostou que ela não tivesse dado uma única notícia durante quase um mês.
- Tens razão Best, perdoa-me, estou a ser parva, eu não tive muito acesso à internet enquanto estive no Brasil, eu vi as tuas chamadas mas por uma razão que nem sei explicar não liguei de volta. Sei que não tenho perdão, mas eu adoro-te Inês, desculpa-me. – Disse já com algumas lágrimas nos olhos, tinha errado e sabia que a Inês era a pessoa mais justa do mundo, por isso, era ela quem tinha que se desculpar.
- Oh minha parva, eu estava a morrer de saudades tuas, é claro que te perdoo, eu não sei viver sem ti. – Inês sorriu.
- É verdade, eu sou testemunha, ela estava cheia de saudades tuas. Estava sempre a dizer “A Mariana é que gosta desta música”, “Este é o gelado preferido da Mariana”, “Será que a Mariana está a gostar das férias no Brasil?” – Brincou o João, tentando fazer uma voz fininha, as raparigas riram.
- É verdade. – Acabou por concluir a Inês.
As duas amigas abraçaram-se e pediram desculpas uma à outra, João olhava deliciado e sorria, sabia como a Mariana era importante para Inês, e até ele gostava daquela miúda e tinha sentido a falta dela nas férias, tinha-se inserido muito bem na nova escola e a verdade é que a Mariana contribuiu e muito para a integração dele. A verdade era que a Mariana era chatinha, mas era uma amiga cinco estrelas.
- Anda cá parvo, também tinha saudades tuas. – Disse Mariana sorrindo.
O João juntou-se ao abraço das amigas e riram os três, parecia que estavam de volta àquela escola onde foram tão felizes.
- Então, conta-nos como foram essas férias no Brasil. – Perguntou o João.
- Ah, foi um show dji bola, cê sabi né? Muita praia, muito sol, muita água de cocô, um montji dji gatxinhos bronzeados – suspirou – foi um sonho. – Tentava imitar o sotaque brasileiro, enquanto contava as novidades aos amigos.
- Ah, gatinhos bronzeados, eu sabia que havia uma boa razão para ela não dar notícias. – Brincou a Inês.
- Bem, já gostei mais desta conversa. – Disse o João, tentando parecer enciumado, o que não era muito difícil, porque ele tinha sempre muitos ciúmes da namorada.
- Então e vocês, o que é que fizeram? Não me digam que ficaram o verão todo aqui sentados? – Brincou mais uma vez Mariana.
- Nós? Bem, na primeira semana de Agosto fomos com a mãe e os avós do João para o Gerês, depois fomos uma semana com os meus pais e o meu irmão para Sintra e a semana passada fomos os dois sozinhos para o Algarve. Não fomos ao Brasil mas visitamos Portugal de Norte a Sul. – Contou Inês enquanto pensava nas férias que tinham passado.
- O quê? O João e o David na mesma casa durante uma semana, essa eu gostava de ver. – Disse ironicamente, a Mariana.
- E dormiram no mesmo quarto. – Completou a Inês.
- Então se o João está aqui ao meu lado, quem morreu foi o David. – Gracejou Mariana.
- És muito tonta. – Disse João enquanto lhe dava uma palmada no ombro.
- É mesmo coisa do teu pai, por os dois a dormir no mesmo quarto, assim não corria o risco da filha ficar desonrada. – Brincou Mariana.
- Atenção, atenção – começou Inês – é oficial, a Mariana está de volta, já cá faltavam as tuas piadinhas de mau gosto.
- Desculpa, mas não podes negar que o teu pai é muito antiquado, podias ficar tu no quarto com o João não é verdade?
- Sabes que se o meu pai te ouve a falar assim nunca mais entras lá em casa, não sabes? – Perguntou Inês.
- O teu pai adora-me, ele não era capaz disso, e ele bem sabe como eu sou e qual é a minha opinião.
- O meu pai não é antiquado, foi uma questão de logística, a casa era pequena, os meus padrinhos e os meus primos também foram, teve que ser assim tonta. – Resmungou Inês defendendo o pai. – E, não sei se me ouviste há bocado, eu e o João fomos sozinhos para o Algarve, achas que o meu pai pensa que dormimos em quartos separados?
- Não te zangues já comigo Inês, acabei de chegar bolas.
- É que tu às vezes és muito inconveniente sabes? – Afirmou Inês já mais sorridente.
- Ó amor – começou João – não te esqueças o que o teu pai disse antes de sair de casa “Tu vais dormir com o David, filha minha não dorme com o namorado debaixo do mesmo teto que eu”, eu até fiquei assustado. – Relembrou o rapaz.
Os três riram, isso não era novidade, partilharam muitas gargalhadas juntos, principalmente naquele sítio, agora enquanto ali estavam parecia que nada tinha mudado, era um regresso ao passado, mas que tinha um sabor amargo, afinal dali para a frente nada ia ser igual.
- O meu pai estava a brincar amor, ele não é assim tão tacanho, mas gosta de manter o respeito.
- Eu sei, o meu sogro é uma pessoa com um humor muito peculiar.
- Então não me responderam se o David morreu ou não? – Perguntou Mariana para mudar de assunto.
- Não Best, o David anda por aí, aliás estamos à espera dele pra ir embora. – Disse Inês.
- Ah ok, estou mais descansada, mas continuo a pensar que nessa batalha épica era o David que sairia vencedor.
- Tão pouca fé nos meus poderes, eu ganhava mesmo sem ter que invocar os poderes das sete bolas do dragão. – Brincou João.
- Já cá faltavam os desenhos animados, o meu irmão até que andou sossegado durante as férias, mas agora que te vai reencontrar vão começar as conversas estranhas. – Lamentou-se a Mariana. – E domingo, posso ir almoçar a tua casa Inês? Tenho saudades dos cozinhados da tua mãe e podíamos por a conversa toda em dia.
- Desculpa querida, mas os meus pais estão na Madeira, ele fizeram vinte anos de casados esta semana e foram numa espécie de segunda lua-de-mel.
- Tu e o David estão sozinhos em casa?
- Sim, por quê?
- Tens razão os teus pais estão mesmo a evoluir, os bebés já ficam sozinhos.
- Por favor Mariana não comeces.
- Ok, desculpa. É verdade, meus amores, tenho uma notícia para vocês. Eu entrei em medicina. – Disse Mariana entusiasmada.
João e Inês ficaram super contentes e abraçaram-na.
- Parabéns Best, tu mereces. – Disse Inês muito feliz.
- Boa miúda, parabéns. – Continuou o João.
- Obrigado. Agora só nos vamos ver aos fins-de-semana. – Disse a Mariana.
- Ah sim, porque? – Perguntou o João.
- Vou para Braga. – Concluiu a Mariana. – O meu irmão também entrou em Braga, vamos morar na casa da minha tia que está na Austrália, assim ainda poupamos.
- Bem que oportuno. – Disse o João, deixando a Mariana com cara de quem não estava a entender nada.
- Oh meu amor, eu também entrei em Braga, em psicologia. – Informou a Inês.
- Mas isso é o máximo Best, vais viver connosco, está decidido. – Disse Mariana muito feliz.
- Não sei Best, a casa é da tua tia. – Proferiu Inês.
- Não te preocupes com isso, está decidido. – Mandou a Mariana.
- Vou falar com os meus pais e depois logo se vê. – Continuou a Inês.
- Está bem Best, mas lá estás à vontade e o João pode ir visitar-nos sempre que quiser, se é que me faço entender. – Ironizou Mariana.
- Isso até é bem pensado. – Sorriu o João. – Pensa nisso amor, se ficares com a Mariana e com o Tiago eu vou ficar mais descansado.
- É isso, pensa bem e depois diz-me alguma coisa, mas já estou a imaginar eu, tu e o Tiago em Braga, tu a cozinhar para mim todos os dias, porque como sabes não tenho jeito para isso …
- Podes parar por aí, queres que eu vá viver com vocês, ou queres uma empregada doméstica?
- Então estás a considerar a oferta, eu sabia que não me ias deixar ficar mal. E não te preocupes o Tiago também sabe cozinhar, não tão bem como tu, mas safa-se. – Ironizou Mariana.
- Tens cá uma lata Mariana, nem sei como te aturo há tantos anos sinceramente.
- Sim Inês, nós já sabemos que tu és uma santa. Agora tenho que ir embora, vou às compras com a minha mãe. Até logo meus amores. – Disse a Mariana enquanto se despedia dos seus amigos.
- Até logo. – Disseram os namorados em coro.
- Ai tão fofos, a falar em coro, depois eu ligo, trouxe uns presentes do Brasil para vocês.
A Mariana foi-se embora deixando um espaço no banco entre o casal que se voltou a aproximar e o João passou os braços por cima dos ombros da namorada.
- É melhor irmos embora também amor. – Pediu a Inês.
- Ok, avisa o teu irmão. Vamos para o carro. – Disse João.
O João deu a mão à namorada e conduziu-a até ao carro, entraram e ela mandou uma mensagem ao irmão.
<Mano, estamos no carro à tua espera. Não demores. Kiss>
Inês pousou o telemóvel no tablier do carro e distraiu-se com o rádio, quando voltou a sua atenção para o namorado reparou que este olhava para ela fixamente e sorria.
- Um cêntimo pelos teus pensamentos – disse Inês, no entanto o João estava tão absorto nos seus pensamentos que pareceu nem ouvir a namorada que insistiu tocando-lhe no rosto suavemente – João? Porque é que estás a olhar assim para mim?
- Sabes Inês, eu sempre imaginei que iria encontrar uma mulher com quem quisesse passar o resto da minha vida, um amor verdadeiro – começou João, Inês sorria – ok podes achar que é muito lamechas, mas eu sempre fui romântico, deve ser influência da minha mãe e da minha avó, sei lá.
- Podes continuar amor, estou a gostar de te ouvir – incentivou a namorada.
- Não sei porque, mas eu sempre achei que quando eu encontrasse um amor, um amor verdadeiro, ia ser para sempre, só nunca pensei que ia encontrar esse amor aos quinze anos. Tu, Inês, foste a melhor coisa que já me aconteceu, crescemos muito juntos e foi com a tua ajuda que eu me tornei no que sou hoje, obrigado por tudo meu amor.
- Ei, não me agradeças amor, só retribuí o que fizeste por mim – disse Inês para em seguida beijar o namorado de forma apaixonada – mas o que é que se passa connosco? – Continuou enquanto limpava uma lágrima que teimava em cair.
- Desculpa, não queria que ficasses assim, mas eu precisava de te dizer isto, preciso que compreendas que és a coisa mais importante para mim neste mundo.
- Eu amo-te João – rematou Inês para pouco depois voltar a beija-lo.
Estavam no carro a ouvir musica e a namorar quando alguém bate no vidro.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Capítulo 2 – Então … Amigos?


Música - Breathe in breathe out (Mat Kearney) 

http://www.youtube.com/watch?v=NDmnG9uTEfk



“Breathe in breathe out
Move on and break down
If everyone goes away, I will stay”




Inês não queria acreditar. Nesse momento um montão de coisas passou-lhe pela cabeça, embora ela tivesse posto Braga como segunda opção de entrada na faculdade, nunca acreditou que pudesse sair do Porto. O que ela mais temia estava a acontecer. Desde que namorava com João nunca tinham ficado separados, sempre ultrapassaram obstáculos juntos, esta seria a primeira vez que iriam ficar longe um do outro.    Quando ganhou coragem enfrentou João, as lágrimas escorreram-lhe pelo rosto e ele apenas a abraçou. Assim ficaram durante largos minutos. Embora não tivessem dito uma única palavra sabiam que o que lhes passava pela cabeça era exactamente a mesma coisa. Durante os anos de namoro criaram uma cumplicidade acima do normal, desde a primeira vez que se encontraram depois daquele jogo. Lembravam-se tão bem. Foi no primeiro dia de aulas do décimo ano, Inês chegava como sempre em cima da hora, muito por culpa de David. Quando chegou à escola já todos os amigos estavam reunidos. Inês tinha de contar a Mariana todas as novidades dos últimos dias, chamou pelos amigos ainda de costas.
-Eih sletos.
Mariana saiu a correr ao encontro dela, abraçou-a e cochichou-lhe ao ouvido.
- Quero ver a tua cara quando conheceres os dois borrachos novos que vêm para a turma.
- Ui, até quero ver essa beleza toda.
- Anda. Eu apresento-te.
 Mariana apressou-se a apresentar os novos colegas a Inês, até que o olhar de Inês se cruzou com o de João, o rapaz do jogo. Pararam ambos a olhar-se, até que Mariana chamou Inês de volta à terra.
- Inês, Inês. Acorda miúda. - Dizia puxando-lhe o braço.
-Ah... - Inês tirou os olhos de João para encarar a melhor amiga. - Que foi?
- Estás tótó de todo. As férias fazem-te mal.
- Desculpa. - Disse sorrindo.
-Ainda quero saber o que foi essa troca de olhares. - Disse cochichando ao ouvido de Inês.  Mariana dirigiu-se ao João. - João esta é a Inês de quem já vos falei, Inês é o João.
- É um prazer. - Disse João sorrindo, Inês retribuiu e avançou para o cumprimentar.
Agora, passados quase três anos a cumplicidade que os une é algo que nem sempre toda a gente compreendeu. Era a amizade que fazia com que a relação deles nunca tivesse tido uma rotura. Após largos minutos abraçados Inês foi quem quebrou o silêncio.
- Eu amo-te! – Foi a única coisa que conseguiu proferir encarando-o em lágrimas. – Não te quero perder.
            -Shhhiu. Não penses nisso agora! Vai avisar todos, tens de dar as boas notícias. - Inês sorriu-lhe.
            Depois de se recompor ligou para os pais, que estavam de férias. Quando do outro lado do telefone a mãe atendeu Inês tentou controlar o choro.
            - Mami. - Disse limpando as lágrimas. - Já saíram os resultados. Eu entrei. Em Braga.
            Do outro lado do telefone João conseguia ouvir os gritos de Marta a espalhar a notícia. Os pais ficaram logo eufóricos por ver a sua filha cumprir não um sonho mas sim um objetivo, como Inês gostava de lhe chamar. Mas como Inês não estava com vontade para muitos festejos tentou desligar depressa.
            João ficou a observá-la, não queria que ela notasse que ele estava triste, só queria que ela sentisse todo o seu apoio. Inês desligou a chamada e sentou-se ao lado de João quando ouviram bater á porta. Era David.
            - Desculpa não sabia que estavas ocupada. – Disse David.
David, irmão de Inês, em tempos tivera desavenças com João. Foram essas discussões que fizeram com que os destinos de João e Inês se cruzassem, embora David fosse totalmente contra a relação dos dois. Agora as coisas estavam mais calmas para além do mais, David ia jogar futebol na equipa de João, e como a relação de Inês e João estava cada vez mais sólida, não fazia sentido a situação deles continuar daquela maneira.
            - Fica. Tens de festejar com a tua irmã. Está na hora de nos deixarmos de parvoíces. – Um silêncio instalou-se no ar, até que Inês decidiu terminar com o momento constrangedor.
            - Entrei… Em Braga. - David ficou de queixo caído, Inês mais que sua irmã era a sua melhor amiga, ele não se queria separar dela por nada. Ao ver a cara assustada de Inês, David foi caminhando para ela e abraçou-a.
            -Eu sabia que ias conseguir. Parabéns!
            - Obrigada maninho.
            - Ah... Finalmente posso ir a todas as queimas com a irmã mais velha!
            - Até parece que não vais sempre.
            - Sim, sim! Mas fora da cidade é outra coisa. – David fez um ar de malandro mas rápido se apercebeu que não devia ter tocado no assunto. – Bem vou agora à escola. O pessoal está todo lá, vamos ver as turmas para o último ano do secundário! - David intensificou as suas últimas palavras.
            - Já pensas que és importante só por estares no último ano do secundário! – Inês tentou imitar a sua expressão.
            - Que engraçadinha! Queres vir… – David hesitou – Querem vir?
- Se está lá o pessoal… Nós vamos. – Inês sorriu perante o ar vitorioso de João que queria mais do que ninguém acabar com aquela guerra.
            - Sim, vamos. – Completou João.

***

Saíram de casa de Inês e David e rumaram á escola no carro que João recebera nos anos, um Range Rover preto que o pai já não usava e deixou para quando o filho tirasse a carta. Quando chegaram á escola Inês correu contar as novidades aos amigos que se encontravam no SPOT enquanto João e David foram ao pavilhão principal verificar as turmas.
            - Parece que … - Murmurou João.
            - Sim parece que sim … - Completou-o David.
Ficaram ambos surpresos quando constataram que iriam frequentar a mesma turma durante o próximo ano lectivo.
            - Ouve, - começou David - é verdade que eu nunca fui muito à bola contigo, quer dizer à bola até fomos algumas vezes - João sorriu perante o jeito atrapalhado e divertido de David - bem, eu nunca gostei de ti e penso que isso foi recíproco mas… eu acho que está na altura de acabar, tu és namorado da minha irmã já lá vão dois anos, vamos frequentar a mesma turma e eu vou entrar na tua equipa. Não me parece certo continuar a agir assim.
            João ficou perplexo perante tal atitude de David, David nunca lhe tinha falado assim. Alguns segundos depois João reagiu.
            - Tens razão! Então … - Pausou - Amigos? – João estendeu o braço para lhe dar um aperto de mão.
            - Eh também não é preciso exagerar! - David ficou reticente, mas João fez aquele olhar que tão bem o caracterizava, não ia desistir, e perante a sua persistência David foi obrigado a selar o aperto.
Inês preparava-se para entrar no edifício quando se deparou com aquela cena. Um enorme sorriso invadiu-lhe o rosto e foi a correr ter com eles.
            - Os meus dois rapazes … - Inês juntou-se a eles num abraço, rindo-se da sua ironia. – Já ouvi as novidades, vão ser colegas, estou tão contente por vocês.
            - Ooh que lamechice. – Disse David soltando-se do abraço. – Bem eu tenho de ir resolver uns assuntos pendentes… se é que me entendem. - Disse piscando o olho - Encontramo-nos á saída. Preciso de boleia.
            - Claro que precisas, de outra maneira não tinhas chegado aqui. – Inês tentou picar David mas este não reagiu á provocação.
            - Blá blá blá ... Até já!

***

Inês olhava a sua volta. Sabia que a partir de agora aquela já não seria mais a sua realidade. Foi ali que passou dos melhores momentos com João e com todos os seus amigos. Foram seis anos da sua vida. A sua adolescência. Os pactos e promessas, as projecções do futuro. Dirigiam-se para o SPOT e Inês não pode deixar de se lembrar das recordações que aquele sítio lhe trazia. Foi ali que se passou a primeira conversa entre eles. No fim da apresentação das turmas naquele primeiro dia de aulas. Estavam todos a ir embora mas Inês continuava como sempre à espera de David. No fim apenas sobraram os dois. E foi Inês a primeira a fazer conversa.
- Então... Estás a gostar da escola?
- Não era bem o que estava á espera, não queria nada vir, mas foi melhor do que eu pensava.
- Porquê?
- Não queria deixar o que tinha na outra escola. Os amigos e assim, deves saber como isso é.
- Nem por isso. Nunca mudei de escola. Estou aqui há três anos. Algum deste pessoal já conheço desde o infantário, acho que se algum dia tivesse de mudar de escola os tinha de levar comigo. Somos uma turma muito unida.
- Bem assim até me fazes sentir um intruso.
Inês sorriu num jeito meigo. - Nada disso. Nós recebemos muito bem toda a gente. Somos muito acolhedores. - Ambos gargalharam, João parou a olhar o sorriso de Inês. Inês desviou o olhar.
- Gostei muito de te ver jogar. - João ficou totalmente embasbacado com o que Inês dissera.
- Bem quanto a isso... e ao que se passou com o teu irmão.
- Deixa, eu não preciso de saber. Eu compreendo, a culpa também foi dele.
- Mas eu não costumo ser assim. Não sei o que me deu naquele dia. Eu não queria fazer-lhe mal.
- Eu sei, o David é que também não se controla. - Inês apercebeu-se de David ao longe e despediu-se á pressa para não ter problemas - Bem tenho de ir, gostei de falar contigo. - Inês levantou-se para ir embora mas interrompeu o percurso e tirando algo do bolso voltou-se para João - Acho que fiquei a dever-te uma. - Disse sorrindo - Até amanhã.
João ficou a vê-la partir. Olhou para a mão vendo o que Inês lhe tinha deixado e repreendeu-se "Sério? Chicletes? Onde é que eu tinha a cabeça?"

***

- Lembras-te de quan... - Inês ia lembra-lo desse episódio mas João cortou-lhe as palavras.
- Claro que lembro.
- Éramos tão atadinhos naquela altura.
- Éramos... Mas foi aí que eu fiquei a saber que tu ias ser minha namorada.
- Ai sim? Nunca me tinhas dito isso antes.
- É eu gosto de guardar algumas coisas para mim. - João pausou sorrindo - Tal como guardei aquela chiclete até hoje.
Inês olhou para o rosto embevecido do namorado.
- Estás a falar a sério?
- Porque haveria eu de mentir?
- Já nem te deves lembrar do sabor.
- Melancia.
Inês sorriu meigamente.
- Eu amo-te tanto.
- Estás a dizer isso porque queres tua chiclete de volta? - Inês cruzou os seus braços no pescoço do namorado.
- Oh pah como adivinhas-te? - Disse com os seus lábios próximos dos de João.
- Sei-te de cor. - Inês gargalhou.
- Ui filosofou agora.
- Só contigo.
- Acho bem, ai de ti que sejas assim para mais alguém.
- Hum... Assim como?
- Assim! Fofinho.
- Não sei se considere isso um elogio.
- Mas é!
João sorriu mais uma vez e juntou os seus lábios.
- Adoro-te minha tonta.
Depois de segundos agarrados Inês separou os olhares de ambos e olhou em volta.
            - Vou ter tantas saudades.
            - Não digas isso … - João tentava esconder a dor que ainda sentia por saber que em dois anos se iam apartar pela primeira vez. – Vais estar cá todo o tempo.
            - Não vai ser a mesma coisa.
            - Vai ser bem melhor. Afinal agora és uma universitária.
            - É tens razão… Mas preferia ser universitária aqui!
            - É um novo desafio. Era o que tu mais querias. Vais conseguir, e vais ver não vai custar nadinha. – Embora João não acreditasse nas suas palavras ele queria que ficasse tudo bem com Inês e não queria que ela se sentisse presa por ele, contudo ele não queria era que ela partisse. Sabia que ia ser uma dor que não conseguiria aguentar. Tentando afastar todos os maus pensamentos ele beijou-a suavemente. – Já sabes quando vais tratar das coisas?
            - Os meus pais só voltam no fim-de-semana. Esperava que o meu namorado estivesse disposto a ir comigo.
            - E achas que o teu namorado recusava um passeio?
            - Não sei mas aposto que ele me vai dizer.  
 - Claro que vou contigo minha tonta.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Capítulo 1 – “Eu vou estar sempre contigo”


Música – I’ll stand by you (The pretenders) - Glee  version                  http://www.youtube.com/watch?v=--lw9yST1g0


“I’ll stand by you
Won’t let nobody hurt you
I’ll stand by you”





*Duas semanas antes*


- Então estás pronta para ver os resultados? – Perguntou o João.
- Sim. – Afirmou pouco convicta. – Quer dizer, estou nervosa, ainda bem que estás aqui comigo amor. – Respondeu Inês.
Estavam os dois, João e Inês, no quarto desta, deitados sobre a cama dela. O quarto de Inês era grande. No meio do quarto estava a cama que não era grande como as camas de casal, mas também não era tão pequena como as camas de solteiro, numa das paredes encontrava-se a janela de onde se podia ver a rua, ao lado da janela estava a secretária com o computador, onde ela costumava estudar, na parede perpendicular a essa estava o guarda-roupa, e ao lado uma estante onde se encontrava a televisão e uma aparelhagem, bem como cd’s, quadros com fotos, alguns dos seus peluches e livros, pois a Inês gostava muito de ler. Ao lado da estante estava a porta que possuía alguns cabides, onde ela gostava de colocar a mochila e as suas carteiras. Na parede em frente a esta, onde ficava encostada a cabeceira da cama, havia uma mesa-de-cabeceira, esta tinha sobre ela um candeeiro, um despertador e um porta-retratos com uma fotografia de Inês e João, por cima da cama estava fixado um quadro onde se lia “Inês 29 de Abril de 1994”, este quadro onde se podia ler o seu nome e a sua data de nascimento tinha sido oferecido pela sua prima mais velha quando ela fez catorze anos, era um presente que ela prezava muito. E na outra parede a esta estava uma pequena cómoda com quatro gavetas e um espelho, por cima da cómoda estavam mais dois porta-retratos um com uma foto de Inês e o irmão e outra onde se via Inês, David e os seus pais quando os irmãos ainda eram pequenos. Esta última parede possuía ainda um espaço onde Inês pôs um grande placard de cortiça, aí colocava algumas coisas especiais para ela, como fotos com os amigos, com o namorado, com o irmão ou com os primos, recortes de jornal sobre o seu clube, o Benfica, ou de alguns dos seus cantores e bandas favoritas, horários da escola ou coisas de que se devia lembrar, e ainda letras de músicas ou frases que a inspiravam, poemas, recados dos amigos e bilhetes que João de vez em quando gostava de lhe mandar e que ela amava receber.
Sobre a cama Inês descansava a cabeça no peito do namorado, com a mão direita João brincava no cabelo de Inês e mantinham os dedos das mãos esquerdas entrelaçados.
- Eu vou estar sempre contigo. – Disse-lhe João com uma sinceridade que sempre lhe foi habitual e um brilho nos olhos que não escapava nem aos mais distraídos. João estava a dizer a verdade e Inês sabia-o perfeitamente.
- Espero bem que sim. – Brincou Inês, sem deixar de sorrir.
Inês sempre gostou daquelas declarações do namorado, faziam com que se sentisse amada. Agora tinham dezoito anos, mas conhecem-se desde os quinze, altura em que João entrou para a escola secundária Eça de Queiroz para a turma do 10º C, a mesma turma a que Inês pertencia. Desde logo se tornaram bons amigos gostavam de falar sobre vários assuntos, tinham muitas coisas em comum. Passados oito meses, em Maio de 2010 começaram a namorar, tinham na altura dezasseis anos. Não eram apenas namorados, eram companheiros, amigos, aliás melhores amigos, eram muito cúmplices e poucas foram as vezes em que se chatearam.
- Então vamos lá, liga o computador. – Disse João que também estava ligeiramente nervoso, com a sensação de que alguma coisa iria mudar e isso deixava-o inseguro.
Inês levantou a cabeça e deu um beijo rápido a João, sentou-se na borda da cama e ficou a olhar para o namorado, lembrava-se perfeitamente do dia em que o conheceu. Foi num domingo à tarde, no final de Agosto de 2009. Inês tinha ido ver um jogo de futebol do irmão mais novo, David, na altura com treze anos, tinha por hábito ir ver os jogos dele com o pai. O jogo não tinha corrido mal era o primeiro da época, e logo contra o seu maior rival, no final acabaram empatados 2-2, mas esse resultado não agradava a nenhuma das equipas o que se revelou durante todo o jogo. Os jogadores estavam impacientes, todos queriam ganhar e mostrar aos respectivos treinadores que podiam apostar neles para o resto da época e até quem sabe subir de escalão, ambas as equipas eram boas e o jogo estava a ser muito renhido, mas os rapazes queriam mais e estavam a cometer muitas faltas.
Quase no final do jogo David sofreu uma falta, ficou estendido no chão, no entanto o árbitro não assinalou qualquer irregularidade e mandou continuar a jogada, David não gostou dessa decisão e correu atrás do rapaz para lhe tentar tirar a bola, não teve muito sucesso, o outro rapaz era muito bom jogador, era mais velho e um pouco mais alto que David, mas David não queria dar o braço a torcer e como não queria perder a oportunidade de se vingar rasteirou o outro jogador que caiu no chão e fez mais fita do que a que era necessária, desta vez o árbitro não fechou os olhos e assinalou a falta dando a David um cartão amarelo, este ficou ainda mais furioso.
O jogo foi decorrendo e cada vez que se encontrava com o seu mais recente inimigo empurrava-o ou era empurrado. Nas bancadas a irmã e o pai não estavam a gostar nada daquela atitude, assim como o treinador e os colegas que assistiam ao jogo no banco de suplentes. Faltavam pouco mais de cinco minutos para acabar o jogo e os dois adversárias, David dirigia-se rapidamente para a grande área, estava muito bem colocado e poderia fazer o golo que daria a vitória para a sua equipa, mas de novo o jogador apareceu e com uma falta feia conseguiu tirar-lhe a bola, o árbitro assinalou, mas apenas mostrou cartão amarelo, David achou injusto, tinha sido uma falta perigosa e qualquer um poderia acha-la merecedora de cartão vermelho directo, David reclamou com o árbitro que não lhe deu ouvidos, o outro rapaz apareceu por trás dele e com um gesto mandou-o calar, David não aguentou mais e envolveram-se numa pequena luta que resultou em expulsão para os dois. À medida que se dirigiam para os balneários viram Inês que se levantou do seu lugar aproximando-se das grades do campo de futebol e com um gesto de encolher de ombros perguntava ao irmão o que se tinha passado. Claro que o outro rapaz não sabia que Inês era irmã de David e ao vê-la sorriu-lhe, com o seu mais bonito sorriso, foi a primeira vez que Inês viu João.
Inês suspirou, as lembranças desse dia faziam-na sorrir. Levantou-se da cama e foi sentar-se na cadeira em frente à secretária onde se encontrava o computador e ligou-o, enquanto esperava que este se ligasse, rodou na cadeira ficando de frente para o namorado que continuava deitado na sua cama e continuou a conversa.
- Tenho tanta pena que não possas concorrer este ano. – Suspirou Inês.
- Também eu, mas eu sou burro não é, andei a brincar e agora tenho que melhorar as notas para poder entrar em Direito. – Entristeceu-se.
- Tu não és burro amor, não digas isso, eu também andei meia distraída este ano. – Concluiu tentando disfarçar a frustração e a tristeza que também a invadiam.
Assim como o objectivo de Inês sempre fora ser psicóloga, o sonho de João sempre foi ser advogado, apesar de também gostar muito de jogar futebol, e de ser um bom jogador, isso sempre foi para ele um passatempo, que lhe dava muito prazer isso é certo, mas nunca o considerou uma opção de carreira.
Ambos tinham os seus sonhos e caminhos bem definidos, durante o namoro tinham feito planos para quando entrassem na universidade, tentariam ficar no Porto para ser mais fácil, assim poderiam ficar perto um do outro e das respectivas famílias, mas agora que o sonho estava para se tornar realidade as coisas não estavam a acontecer como o planeado, João distraiu-se demais com o futebol e as suas notas baixaram drasticamente, sendo assim obrigado a repetir o ano. As notas de Inês também baixaram, mas ainda poderia tentar a sua sorte nas universidades, a sua primeira opção foi o Porto e os dois esperavam ansiosamente que ela conseguisse entrar na sua cidade natal, assim apesar de o sonho de João ter que ser adiado por um ano, pelo menos tinha a namorada por perto para o apoiar.
- Esse teu computador já está a pedir a reforma, está cada vez mais lento. – Disse ele para mudar de assunto.
Ainda se sentia mal, por se ter baldado tanto durante o ano, talvez se tivesse gerido melhor o tempo isso não tivesse acontecido. O futebol roubou-lhe mais tempo do que o normal, pois a equipa dele estava prestes a subir de divisão e os jogadores tinham que se esforçar mais. Apesar de o futebol não ser uma opção de futuro para ele, dava-lhe muitas alegrias e não tencionava largá-lo, quando jogava futebol podia libertar todas as suas frustrações, era um escape para os problemas do dia-a-dia. No entanto esse hobby estava a tomar-lhe demasiado tempo o que não ajudava nos estudos e João descurou a escola durante a maior parte do ano. Quando combinava estudar com a namorada para tentar subir as notas, tinha que fazer um esforço para se manter concentrado, era difícil estar ao pé dela e apenas estudar.
- É, tenho que ver se os meus pais estão dispostos a oferecer-me um novo. – Sorriu Inês, pouco convencida.
A Inês também se sentia culpada pelo namorado, podia tê-lo ajudado mais e assim talvez ele não tivesse que repetir o ano, podia ter insistido mais para ele estudar, podia ter recusado os convites dele, mas isso, ela também não queria, já passava tão pouco tempo com ele, não queria desperdiçar os poucos momentos que tinham juntos. Apesar de estudarem na mesma escola e até de pertencerem à mesma turma era difícil para eles estarem sozinhos, apesar de João jogar futebol num clube regional, não dispensava as partidas de futebol durante os intervalos com os amigos, para além disso ainda fazia parte da Associação de Estudantes da Escola Eça de Queiroz. Por sua vez Inês fazia parte de um programa em que os alunos mais velhos davam explicações aos alunos mais novos e era bem sucedida na sua tarefa, os alunos do terceiro ciclo gostavam de tirar dúvidas com ela pois esta tinha um jeito especial de explicar as coisas. Três vezes por semana, depois das aulas João tinha treino de futebol e Inês jogava na equipa de voleibol da escola. Os fins-de-semana também eram preenchidos, João tinha os seus jogos de futebol e Inês gostava de os ir ver, no entanto por vezes, era difícil escolher entre os jogos do namorado e os jogos do irmão, que disputavam a sua atenção. Em resumo, o tempo que tinham só para eles era escasso e por vezes era utilizado para Inês explicar as matérias ao namorado.
- Pode ser que to ofereçam como prenda por entrares na universidade. – Disse-lhe o João.
- Ok, já está ligado – proferiu e olhou-o com ar de menina mimada – amor, podes ser tu a ver, estou muito nervosa.
- Está bem, levanta-te daí, minha nervosinha. – Disse João enquanto se sentava na cadeira dela e abria a página da internet onde estavam os resultados das entradas na universidade.
A namorada de João sempre se mostrou confiante, era uma miúda corajosa e enfrentava os problemas de frente, essa é uma das características que fez com que João se apaixonasse por ela quase de imediato. João lembra-se muito bem do dia em que a viu pela primeira vez. Foi em Agosto de 2009, era o primeiro jogo da época e ele tinha recebido a notícia que iria mudar de escola, ia deixar os amigos de sempre e mudar-se para uma escola desconhecida e isso não lhe agradava nada, ele estava agitado o que se notava na sua maneira de jogar.
O jogo não estava a ser fácil e a equipa dele estava empatada 2-2, para além disso um dos miúdos da outra equipa era muito bom e estava sempre a fazer jogadas perigosas, a equipa dele não podia perder logo no primeiro jogo, não era um bom pressagio para o resto da época, então tentou travar o rapaz de várias maneiras, mas não estava nos seus melhores dias e o jogo não estava a correr bem para ele, não teve outro remédio senão recorrer às faltas, mas o miúdo não se deixou ficar e retribuía na mesma moeda.
Faltava pouco tempo para o fim do jogo e o outro rapaz estava a aproximar-se muito perigosamente da área ninguém o parava e João cometeu uma falta feia, tinha a noção que ia ser expulso o miúdo ficou magoado, mas o árbitro apenas mostrou cartão amarelo, João pode suspirar de alívio, mas o miúdo não se calou e foi protestar com o árbitro, João mandou-o calar colocando o dedo sobre os lábios e o rapaz não se ficou e empurrando-o, João empurrou-o de volta e envolveram-se numa luta que culminou na expulsão dos dois.
Enquanto se dirigia para os balneários viu nas bancadas uma rapariga que se levantou e apoiou-se nas grades, pensou que ela estaria a olhar para ele e sorriu-lhe. Por ter ido para os balneários mais cedo ficou pronto mais rápido que os colegas e como não conseguia ouvir mais protestos pelo seu mau jogo resolveu sair dos balneários e esperar os outros perto das carrinhas que os levariam de volta a casa. Já no estacionamento viu a tal rapariga encostada a um carro, João não podia perder a oportunidade de ir falar com ela, mas não tinha assunto, não sabia o que dizer, mesmo assim foi-se aproximando dela e quando estava quase a virar costas e a desistir a rapariga virou-se e encarou-o, ele ficou sem palavras, mas não podia ficar lá a fazer figura de parvo, então abriu a boca e deixou sair a primeira coisa que lhe veio à cabeça “Tens chicletes?”, perguntou ele, a rapariga sorriu-lhe e quando ia responder ouviu-se uma voz que surgiu nas costas de João, “Precisas de alguma coisa ó palhaço?”, perguntaram-lhe, João virou-se e deparou-se com o rapaz que tinha enfrentado no jogo, ainda era um miúdo devia ter uns doze ou treze anos, mas encarou-o sem medo algum, e continuou “Inês este atrasado está a chatear-te?”, “Não” disse a rapariga simplesmente, mas o miúdo continuou “Sai daqui palerma já não te chegou estragares-me o jogo?”, João não teve tempo de responder, pois chegou um homem “Já chega David” disse, e entrou no carro, já lá dentro abriu a janela e disse “Inês entra no carro e trás o teu irmão se faz favor.” Entraram os dois no carro e este arrancou, João ficou a vê-los afastar-se e por um momento quando o carro já ia longe teve a sensação de vê-la olhar para trás e sorrir. Inês era a irmã do rapaz que ele tinha maltratado no campo, ficou a pensar se voltaria a vê-la em breve ou teria que esperar pela segunda volta a encontrar no jogo contra o seu irmão. De qualquer forma a rapariga nunca mais lhe saiu do pensamento, Inês era o nome dela.
Depois de João ter ocupado o lugar dela em frente ao computador, Inês foi sentar-se na cama e começou a roer as unhas tal era o seu estado de nervosismo. Queria muito entrar em Psicologia, era o seu sonho e estava prestes a saber se este ia ser concretizado ou não.
- Então amor, boas notícias? – Perguntava cada vez mais ansiosa.
- Calma amor. – Dizia ele, preocupado.
Ele pesquisava o nome dela na lista, encontrou-o e abriu o link, quando viu os resultados sentiu o chão a fugir-lhe dos pés, não sabia como reagir àquilo. Rodou na cadeira e ficou de frente para ela.
- Parabéns meu amor, entras-te em Psicologia. - Disse tentando mostrar algum entusiasmo.
- A sério, estás mesmo a falar a sério? – Perguntou meio incrédula.
- Claro que sim, tu entras-te em psicologia, parabéns meu amor, tu mereces. – Disse o João enquanto se levantava para abraçar a namorada.
Ela ria enquanto o abraçava, notava-se que estava muito feliz, era o realizar de um sonho e apesar de ela sempre ter sido boa aluna, tinha algumas dúvidas em relação às suas notas, que baixaram neste último ano. Ele estava contente por ela. Inês soltou-se do abraço dele e beijou-o, estava mesmo feliz e queria partilhar essa sua alegria com ele.
- Ainda bem, meu anjo, deste-me a melhor notícia dos últimos tempos, estava mesmo nervosa. – Disse ela ainda um bocado eufórica.
- Eu estou muito feliz por ti, meu amor, mas … - disse  João, não conseguindo continuar.
- Mas o quê? – Perguntou.
- Mas … - Parou mais uma vez.
- Continua João Pedro. – Pediu ela.
- Tu entras-te em Braga.